Por que Wall Street e o Tesouro Direto azedaram Relevância4,0
Intermediário PTENES

Por que Wall Street e o Tesouro Direto azedaram: o choque do petróleo a US$ 108 e os juros nos EUA

A recusa de uma trégua no Oriente Médio disparou a commodity, elevou os Treasuries a máximas de décadas e puxou os prefixados brasileiros para 14%.

Por que as bolsas americanas e o Tesouro Direto caíram nesta segunda-feira?

A rejeição do governo americano a uma proposta de paz do Irã fez o petróleo disparar quase 4% rumo a US$ 108 por barril, renovando os temores de inflação global e empurrando as taxas dos títulos públicos nos EUA e no Brasil para novas máximas. O movimento atingiu em cheio os mercados de ações globais nesta segunda-feira (28/09/2026): o S&P 500 recuou 0,59%, encerrando aos 7.698,04 pontos, enquanto os rendimentos das Treasuries longas renovaram picos não vistos há quase duas décadas.

O efeito contagiou a renda fixa brasileira quase em tempo real. Com o cenário internacional exigindo taxas de juros elevadas por mais tempo nos Estados Unidos, os títulos prefixados do Tesouro Direto voltaram a negociar no patamar dos 14% ao ano, enquanto os papéis atrelados ao IPCA registraram perdas por marcação a mercado no dia.

S&P 500 7.698,04 -0,59% no dia
Brent (Petróleo) US$ 108,23 +3,75% de alta
Tesouro Prefixado 2029 13,93% +8 bps no dia
Probabilidade Alta Fed 68% Precificação do mercado

Como o impasse geopolítico levou o petróleo a US$ 108?

O gatilho direto do estresse do mercado foi a declaração de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rejeitou uma proposta temporária de paz apresentada pelo Irã na Assembleia Geral das Nações Unidas. Segundo informações veiculadas pela imprensa internacional e pela Reuters, o plano iraniano previa a reabertura do Estreito de Ormuz em sete dias em troca do alívio imediato de sanções e da liberação de ativos congelados de Teerã.

A recusa de Washington confirmou ao mercado que as tensões no Golfo Pérsico continuarão reprimindo a oferta de energia no curto prazo. Como consequência, o contrato futuro do petróleo Brent subiu 3,75%, cotado a US$ 108,23 por barril, enquanto o WTI avançou 2,85%, negociado a US$ 95,97.

De acordo com o analista de inteligência de mercado da StoneX, Bruno Cordeiro, a posição de Washington frustrou a expectativa inicial de que o fluxo de exportações da região pudesse ser restabelecido rapidamente. Sem a perspectiva de normalização do fornecimento, a commodity segue consolidada como o principal motor de pressão inflacionária global no momento.

Por que os juros longos nos EUA bateram máximas de décadas?

A disparada do petróleo encadeia uma reação em cadeia na economia americana: commodity mais cara gera custos de frete e produção elevados, o que reacende a inflação e força o Federal Reserve (Fed) a manter os juros altos. De acordo com analistas de mercado ouvidos pela Reuters, o setor de energia tem sido a única fonte persistente de pressão de alta nos preços americanos, servindo de justificativa para uma postura monetária abertamente restritiva.

Diante desse quadro, os investidores correram para refazer as contas sobre a trajetória da taxa básica dos EUA. O mercado passou a precificar 68% de chance de o Fed promover um novo aumento de juros em suas próximas reuniões.

Efeito nos papéis americanos: O rendimento da Treasury de 10 anos atingiu sua maior taxa desde junho de 2007 nesta sessão. Já o título de 30 anos segue oscilando em níveis não vistos desde 2004. Quando os papéis livres de risco pagam retornos tão elevados, o custo de capital das empresas dispara e o prêmio para manter ações do S&P 500 fica desfavorável.

Adicionalmente, atas da recente reunião do Banco do Japão (BoJ) divulgadas nesta segunda-feira reforçaram que a autoridade monetária japonesa vê espaço para continuar elevando suas taxas de juros, já que a inflação subjacente do país se aproxima da meta de 2%. O aperto simultâneo nas maiores economias do planeta reduz a liquidez global e comprime os múltiplos do mercado acionário.

O que mudou nas taxas do Tesouro Direto brasileiro?

O choque nos rendimentos americanos e no petróleo transbordou imediatamente para as curvas de juros brasileiras. Na abertura e ao longo das negociações do Tesouro Direto nesta segunda-feira, as taxas dos títulos públicos dispararam, com destaque para a ponta prefixada.

Título Fechamento Anterior Taxa Atual (28/09) Variação
Tesouro Prefixado 2029 13,85% 13,93% +8 bps
Tesouro Prefixado 2032 14,08% 14,15% +7 bps
Tesouro IPCA+ c/ Juros 2037 7,49% 7,55% +6 bps
Tesouro Prefixado c/ Juros 2037 14,06% 14,12% +6 bps

Como mostra o levantamento das cotações no Tesouro Direto, os títulos prefixados mais longos voltaram a rodar acima da barreira simbólica dos 14% ao ano. Para quem carrega esses títulos na carteira antes do vencimento, o movimento significa queda momentânea no saldo devido à marcação a mercado, já que a alta nas taxas reduz o valor presente do título.

Por que a Nvidia subiu 3,2% no meio do tombo geral?

Enquanto o mercado amplo e o setor de consumo discricionário lideravam as perdas em Nova York, a Nvidia figurou como a grande exceção isolada do dia no S&P 500. As ações da gigante dos semicondutores saltaram 3,2% no mesmo pregão.

A alta descolada da tendência geral ocorreu após a empresa anunciar um programa de recompra de ações no valor de US$ 150 bilhões. Trata-se da maior autorização de recompra de ações já registrada na história da companhia, fato que protegeu o papel da onda de liquidação que afetou o restante do setor de tecnologia e a bolsa americana como um todo.

O que acompanhar daqui para frente?

Para quem investe no mercado brasileiro ou possui ativos internacionais no portfólio, o evento desta segunda-feira serve como um lembrete importante do canal de transmissão entre geopolítica, commodities e renda fixa.

Os pontos centrais para manter no radar são:

  • Evolução do petróleo no Oriente Médio: A continuidade do Brent próximo ou acima de US$ 108 manterá o alerta aceso nos bancos centrais globais, impedindo cortes de juros.
  • Múltiplos de ações americanas (S&P 500): Com as Treasuries oferecendo retornos de longo prazo em níveis historicamente altos, os prêmios de risco para ações seguem comprimidos. O cenário favorece posições cautelosas em renda variável internacional de valuation esticado.
  • Oportunidades e volatilidade na Renda Fixa: A alta das taxas prefixadas para a faixa de 14% atrai investidores focados em carregar os títulos até o vencimento. No entanto, quem busca ganhos com marcação a mercado de curto prazo deve estar ciente de que a volatilidade continuará elevada enquanto o ambiente externo não se pacificar.