A Petrorecôncavo (RECV3) informou na quinta-feira (5) lucro líquido de R$ 236,1 milhões no terceiro trimestre de 2026, 94% acima dos R$ 121,9 milhões de um ano antes. O número impressiona, mas precisa de leitura cuidadosa: sem o ganho contábil com swaps, o lucro ajustado fica em R$ 145,3 milhões. Para saber se os dividendos continuam, o que conta é o caixa, e ele melhorou de verdade.
RECV3: o que é a Petrorecôncavo?
A ação RECV3 é da Petrorecôncavo, que se define como a primeira operadora independente de petróleo e gás especializada em operar e revitalizar campos maduros em terra no Brasil. A empresa tem 57 concessões na Bahia, no Rio Grande do Norte e em Sergipe, organizadas em dois polos: o Ativo Bahia e o Ativo Potiguar. O negócio é extrair mais de campos antigos, boa parte comprada no programa de desinvestimentos da Petrobras, com custo baixo.
Por isso o resultado depende de três fatores: o preço do Brent, o câmbio e o volume. Campo maduro tende a produzir menos com o tempo, e é preciso investir só para manter a produção. Quem compra a ação costuma buscar dividendo. A R$ 10,32 (fechamento de 06/11), a ação negocia a 6,1 vezes o lucro e a 0,68 vez o patrimônio, com dividend yield de 16,5% em 12 meses. Ela caiu 17,6% em um ano e, como mostramos, saiu da carteira do Ibovespa que vale até dezembro. O mercado já desconfiava, e o 3T26 traz um lucro que precisa ser examinado de perto.
O lucro de 94% da Petrorecôncavo é recorrente?
Não por inteiro. A maior parte do salto veio da marcação a mercado de swaps cambiais ligados à dívida, um ganho contábil que não passou pelo caixa no trimestre. Com a queda dos juros e do dólar, esses contratos de proteção ganharam valor no papel: R$ 159,2 milhões antes dos impostos. Por isso o resultado financeiro ficou positivo em R$ 78 milhões, contra R$ 9 milhões negativos um ano antes.
O efeito líquido é conta nossa: a diferença entre o lucro contábil e o ajustado. Foi esse ganho que fez o lucro superar a projeção da XP, que esperava R$ 172 milhões. Já a receita (R$ 786 milhões) e o Ebitda (R$ 360 milhões) vieram em linha com o que a corretora projetava. A comparação justa, portanto, é com o lucro ajustado, que fica cerca de 19% acima do lucro de um ano antes (conta nossa, contra o contábil do 3T25). É uma melhora real, mas bem mais modesta. No acumulado de nove meses, o lucro soma R$ 563 milhões, 4% abaixo de 2025.
A parte operacional também avançou: o lucro bruto subiu 11,5%, para R$ 261,1 milhões, e o resultado operacional cresceu 11,7%, para R$ 176,1 milhões. Isso com a produção em queda. De onde veio essa melhora?
Produção caindo, margem subindo: como a conta fecha?
| Indicador | 3T25 | 2T26 | 3T26 |
|---|---|---|---|
| Produção média (mil boe/dia) | ~26,3* | 24,1 | 23,7 |
| Receita líquida (R$ mi) | 786,4 | ~810* | 786,3 |
| Ebitda ajustado (R$ mi) | 350 | ~395* | 379 |
| Margem Ebitda ajustada | 44,5% | — | 48,2% |
| Capex (R$ mi) | 309 | ~172 | 172 |
| Dívida líq./Ebitda | — | 1,01x | 0,90x |
* Estimativa nossa, calculada a partir das variações informadas (produção −10% em um ano; receita −3% e Ebitda ajustado −4% no trimestre). Capex do 2T26 descrito como estável pela XP.
A queda de volume veio do Rio Grande do Norte. O Ativo Potiguar recuou 4,5%, para 11,8 mil boe/dia, com o declínio do gás no campo de Sabiá e falhas em poços. A Bahia cresceu 1%. O petróleo, que tem mais valor, subiu 4% sobre o trimestre anterior, para 14,2 mil barris/dia, puxado por alta de 9% na Bahia. Quem caiu foi o gás.
A margem subiu por três motivos: o câmbio reduziu o custo de extração por barril, a venda de gás e de serviços compensou a receita menor com petróleo, e o investimento caiu quase pela metade em um ano. Os hedges de petróleo pesaram contra, num trimestre de Brent mais fraco (o oposto do cenário que descrevemos em a disparada do petróleo a US$ 100 em julho). Investir menos libera caixa agora, mas em campo maduro também ajuda a explicar por que a produção não volta a crescer. Esse caixa é suficiente para os dividendos?
Os dividendos da RECV3 estão garantidos?
O caixa do trimestre cobre o ritmo de proventos com folga, mas a empresa ainda não anunciou o próximo pagamento. O fluxo de caixa livre foi de R$ 134 milhões, 81% acima dos R$ 74 milhões do 2T26. Depois do serviço da dívida, a XP calcula R$ 119 milhões de caixa livre para o acionista. Dividido pelas cerca de 293,5 milhões de ações, isso dá:
O número de ações é conta nossa: R$ 100 milhões de JCP divididos por R$ 0,340736 por ação. No ano, a empresa pagou R$ 200 milhões em JCP (R$ 0,68 por ação), contra R$ 288 milhões de caixa livre acumulado. Em 2025, esse caixa tinha sido negativo no mesmo período. Ao mesmo tempo, a dívida líquida caiu para R$ 1,2 bilhão, 23% menos que no fim de 2025, e a alavancagem recuou de 1,04 vez no 1T26 para 0,90 vez. Nossa ficha registrava 0,87 vez; o número do release é 0,90.
O que falta: nas reportagens sobre o balanço não aparece um novo JCP anunciado junto com o 3T26, ao contrário de maio e agosto. Isso não é corte, porque os JCP já pagos entram no dividendo mínimo obrigatório de 2026, e o restante pode vir depois. Mas é o ponto a acompanhar. Se a empresa mantivesse R$ 0,34 por trimestre, seriam R$ 1,36 por ano, ou 13,2% sobre R$ 10,32. Isso é uma premissa, não uma promessa. Então, a ação está barata ou é uma armadilha?
RECV3 vale a pena com a ação perto de R$ 10?
Pelos múltiplos, a ação parece barata. O valor de mercado fica perto de R$ 3 bilhões (conta nossa: 293,5 milhões de ações × R$ 10,32), e o caixa livre ao acionista de um trimestre equivale a 4% disso, ou 16% ao ano, nas contas da XP. A ação subiu na sexta-feira (6), depois de cair 11,8% no mês. Nosso modelo de valuation aponta um preço justo de R$ 22,88, mas com confiança baixa: o próprio modelo avisa que um valor acima do dobro da cotação não é crível como preço-alvo. Trate como sinal de desconto, não como meta.
- O caixa livre cobre o JCP trimestral e ainda ajuda a reduzir a dívida.
- A empresa contratou capacidade de processamento de gás na UTG Catu de 2028 a 2037 e suspendeu cerca de US$ 60 milhões em investimentos na UPGN Miranga.
- A margem subiu mesmo com menos volume, sinal de custo sob controle.
- A produção cai há trimestres seguidos: 24,4 mil boe/dia no 1T26 e 24,1 mil no 2T26, antes dos 23,7 mil atuais.
- Boa parte do lucro deste trimestre veio de swaps, e esse efeito pode se inverter se o dólar ou os juros subirem.
- O próximo provento ainda não foi anunciado, e o 4T26 terá uma parada programada no gás.
Para comparar com outro balanço da temporada em que o lucro saltou, veja o que explicou o resultado recorde da Multiplan. Lá a alta veio da operação. Aqui veio, em boa parte, da linha financeira.
O que acompanhar na Petrorecôncavo até o 4T26
Próximo JCP ou dividendo: um anúncio de cerca de R$ 0,34 por ação confirma o ritmo; algo abaixo de R$ 0,25 indicaria que a empresa está guardando caixa.
Produção no 4T26: a parada de 25 dias na UTG Catu vai derrubar o gás. Ficar abaixo de 23 mil boe/dia sem recuperação no 1T27 confirmaria que o declínio continua.
Alavancagem: abaixo de 1,0 vez, a empresa tem espaço para pagar proventos; voltar acima disso coloca o pagamento em disputa com a dívida.
Governança e concessões: a sucessão na diretoria deve ser concluída no 4T26, e a assinatura dos contratos dos novos blocos está prevista para fevereiro de 2027.