Por que as ações do Nubank (ROXO34) despencaram hoje?
A reação negativa do mercado financeiro foi desencadeada pela notícia de que o banco digital Nubank está negociando a compra do britânico Monzo Bank em uma transação estimada entre 8 bilhões e 10 bilhões de libras. A informação, originalmente divulgada pela emissora britânica Sky News no sábado (26/09), aponta que as empresas iniciaram conversas sobre uma potencial fusão ou aquisição envolvendo caixa e ações, levando investidores a vender papéis da fintech na Bolsa brasileira e em Nova York nesta segunda-feira (28/09).
Na B3, o BDR do Nubank (ROXO34) encerrou o pregão em queda de 8,6%, cotado a R$ 10,63 — contra R$ 11,63 no fechamento anterior de sexta-feira. Durante a sessão, os negócios ganharam ritmo intenso, registrando volume financeiro de 25,2 milhões de BDRs negociados, ante 7,1 milhões no dia anterior. Já na Bolsa de Nova York (NYSE), a ação da holding (NU) despencou 9,9%, fechando a US$ 12,24 e reduzindo o valor de mercado total do grupo para cerca de US$ 60 bilhões. Nos últimos 12 meses, os papéis da instituição acumulam desvalorização de 21%.
Segundo a imprensa internacional, o Monzo contratou os bancos de investimento Morgan Stanley e Qatalyst para avaliar as alternativas estratégicas do negócio. Caso as tratativas de venda integral com o Nubank não progridam, o banco britânico estuda levantar capital vendendo uma fatia de até 15% para fundos de venture capital ou avançar com uma abertura de capital (IPO) na Bolsa de Londres.
Quanto custaria a compra do Monzo e qual é o tamanho da operação?
O Monzo Bank é uma das principais fintechs do Reino Unido, fundada em 2015 com forte presença na Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, além de iniciativas recentes de expansão para a Espanha e Irlanda. O banco conta atualmente com 16 milhões de clientes registrados — dos quais 15 milhões são pessoas físicas e 1 milhão são pequenas e médias empresas.
No último ano fiscal, o Monzo apurou receita de 1,7 bilhão de libras, o que representa um crescimento de 39% sobre o período anterior. O lucro antes de impostos atingiu 172,6 milhões de libras, avanço anual de 20%. No entanto, o montante exigido para a compra varia entre 8 bilhões e 10 bilhões de libras (o equivalente a uma faixa de US$ 11 bilhões a US$ 13 bilhões), montante considerado elevado por analistas para o atual patamar de rentabilidade do ativo target.
| Métrica Operacional | Monzo Bank (Reino Unido) | Nubank (Nu Holdings) |
|---|---|---|
| Base de Clientes | 16 milhões | +100 milhões |
| Receita Anual | £ 1,7 bilhão (+39%) | US$ 8,0+ bilhões |
| Lucro Antes de Impostos | £ 172,6 milhões (+20%) | US$ 1,0+ bilhão |
| Múltiplo Preço / Lucro (P/L) | 93 a 116 vezes | 21 vezes |
| Múltiplo Preço / Receita (P/S) | 5,0 vezes | 3,5 vezes |
Por que o mercado achou a transação cara? O cálculo dos analistas
A avaliação financeira da transação foi o principal ponto de atrito entre os investidores e motivou os rebaixamentos de expectativa ao longo do dia. Em relatório divulgado pelo Bradesco BBI, o analista Marcelo Mizrahi destacou que o valor cobrado pelo Monzo implica um múltiplo entre 93 a 116 vezes o lucro e de 5,0 vezes a receita, parâmetros classificados pela casa como bastante caros quando comparados aos múltiplos atuais do próprio comprador.
A equipe do Bradesco BBI lembrou que o Nubank é negociado hoje em patamares significativamente mais descontados: cerca de 21 vezes o lucro e 3,5 vezes a receita. Pagar um prêmio tão elevado por uma operação internacional em estágio de maturação diferente criaria, segundo analistas, uma diluição imediata de retorno sobre o patrimônio para os acionistas do Nubank.
Avaliação de múltiplos: O Bradesco BBI pontuou que o Monzo negociaria entre 93 a 116 vezes o lucro na proposta reportada, enquanto o Nubank vale 21 vezes lucro no mercado de capitais. Um gestor consultado pelo mercado relembrou a aquisição da corretora Easynvest por R$ 2 bilhões pelo Nubank, classificando a integração passada como "muito mal feita" e alertando para o risco de execução em grande escala no exterior.
Análises publicadas pelo JPMorgan reforçaram a cautela com o papel no curto prazo. Segundo a casa de análise, era esperada uma reação negativa imediata das ações em virtude do valuation esticado, da incerteza sobre a estrutura de financiamento (uso de caixa vs. emissão de novas ações) e da eventual percepção de mudança na estratégia de alocação de capital da empresa.
O que dizem os analistas que defenderam o racional do negócio?
Por outro lado, relatórios de bancos de investimentos internacionais apontaram ganhos estratégicos relevantes para a tese de longo prazo do Nubank caso o negócio seja consumado. O analista Gustavo Schroden, do Citi, observou que a operação possui um caráter potencialmente "transformacional". Na visão do Citi, a entrada no Reino Unido permitiria ao Nubank diversificar geograficamente sua receita em um mercado desenvolvido e consolidado, além de dar acesso direto a uma ampla base de depósitos em libras esterlinas (moeda forte).
Do mesmo modo, o UBS BB registrou em nota a clientes que a potencial aquisição se alinha com a estratégia declarada do Nubank de construir uma plataforma global de serviços financeiros. Contudo, o banco suíço fez uma ressalva operacional relevante: os modelos de negócio das duas instituições guardam diferenças marcantes. Enquanto o Nubank cresceu apoiado na oferta de cartão de crédito e crédito pessoal na América Latina, o Monzo possui menor exposição à carteira de crédito e concentra sua atuação em contas digitais de engajamento e serviços transacionais.
Questionada oficialmente sobre os rumores e as movimentações atípicas de suas ações no mercado, a assessoria do Nubank declarou formalmente: "Reafirmamos nosso compromisso em manter uma comunicação transparente, clara e ágil sobre qualquer assunto relevante para os nossos negócios", sem confirmar ou negar os termos do M&A.
O que o investidor de ROXO34 deve acompanhar a partir de agora?
Para o investidor pessoa física que detém BDRs do Nubank (ROXO34) ou ações originais (NU), o momento exige atenção aos desdobramentos de governança e alocação de capital. A transação ainda se encontra em fase preliminar de sondagem e dependerá de termos contratuais, auditorias detalhadas (due diligence) e aprovação de órgãos reguladores globais e britânicos.
O que monitorar nos próximos passos
- Estrutura de pagamento: Caso a compra avance, será decisivo observar o percentual pago em dinheiro existente no caixa em relação ao montante pago via emissão de novas ações (o que diluiria acionistas atuais).
- Decisão do Monzo: A fintech britânica mantém aberta a opção de levantar capital com fundos de venture capital (venda de 15%) ou fazer IPO na Bolsa de Londres, o que pode anular o M&A.
- Retorno sobre capital: O mercado continuará cobrando métricas claras de rentabilidade para garantir que a expansão na Europa não prejudique as margens de crescimento da operação na América Latina (Brasil, México e Colômbia).
O movimento visto no pregão reflete a repaginação do risco percibido pelo mercado: a empresa deixa de ser avaliada apenas pelo crescimento orgânico de alta rentabilidade no Brasil e México e passa a embutir o risco de integração transfronteiriça de grande porte. Acompanhar os comunicados ao mercado e os relatórios operacionais subsequentes será essencial para definir se a queda atual representa um ajuste justo de valuation ou uma oportunidade de entrada na tese global do papel.