A notícia é boa para quem tem a ação SBSP3. O Conselho de Administração da Sabesp aprovou em 05/11 juros sobre capital próprio (JCP) de R$ 2,64 bilhões, que equivalem a R$ 0,74986562544 brutos por ação. Recebe quem estiver com o papel no fim do pregão de terça, 10 de novembro. Quem já tem a ação e não vender até lá não precisa fazer nada.
SBSP3: o que aconteceu?
Segundo Fato Relevante entregue à CVM, a Sabesp vai distribuir em JCP 50% do lucro líquido dos nove primeiros meses de 2026, calculado depois de separar a reserva legal de 5%. A partir de 11 de novembro, inclusive, as ações passam a ser negociadas "ex-JCP" na B3, ou seja, quem comprar daí em diante não leva esse provento. A empresa promete pagar até a data da assembleia geral ordinária que aprovar o balanço de 2026, e o valor não terá atualização monetária.
Pela proporção informada, dá para estimar o tamanho do lucro que serve de base. Se R$ 2,64 bilhões são metade do lucro após a reserva, essa base é de cerca de R$ 5,27 bilhões. Somando de volta a reserva de 5%, o lucro líquido de janeiro a setembro fica perto de R$ 5,55 bilhões (estimativa nossa, feita a partir dos percentuais do documento). Sozinho, o terceiro trimestre contribuiu com bem menos: lucro líquido contábil de R$ 1,388 bilhão entre julho e setembro de 2026, recuo de 35,7% sobre o mesmo período de 2025.
Quanto cai na conta por ação, já descontado o imposto?
JCP não chega inteiro ao acionista, ao contrário do dividendo. A empresa retém o Imposto de Renda na fonte, e essa alíquota mudou neste ano: a partir de 1º de janeiro de 2026, a alíquota passa a ser de 17,5%; até o final de 2025, o JCP estava sujeito à retenção de 15%, por causa da Lei Complementar 224/2025.
Na prática, quem tem 100 ações recebe cerca de R$ 61,86 líquidos, e quem tem 1.000 ações recebe R$ 618,64. Com a regra antiga de 15%, seriam R$ 637,39: o aumento do imposto custa cerca de R$ 18,75 a cada mil ações nesse provento. Para a pessoa física, o desconto na fonte encerra a tributação. Na declaração anual, o valor vai na ficha de rendimentos com tributação exclusiva.
Comparado ao preço, o provento pesa. No fechamento de 05/11, com a ação a R$ 25,01, o JCP bruto equivale a 3,0% da cotação, e o líquido a 2,5%. Só que esse rendimento demora a chegar, e é aí que entra a pergunta seguinte.
Quando o dinheiro do JCP da Sabesp cai na conta?
O documento não traz a data do depósito, só o prazo máximo: a assembleia que aprovar as contas de 2026, que normalmente acontece até abril do ano seguinte. O histórico ajuda a prever. O JCP com data-ex em 24/12/2025, referente a 2025, foi pago em 30/04/2026, segundo os registros da B3 na ficha da ação. Se a Sabesp repetir esse calendário, o dinheiro chega por volta do fim de abril de 2027, quase seis meses depois da data de corte.
Como o valor não é corrigido, a espera tem custo. Com o CDI na casa de 13,65% ao ano, R$ 0,6186 aplicados de meados de novembro ao fim de abril renderiam cerca de 6%, ou uns R$ 0,04 por ação (estimativa nossa). Não muda a decisão de ninguém, mas mostra que o "3%" do anúncio vale um pouco menos em termos de hoje.
Por que algumas notícias falam em R$ 0,752 por ação?
Porque houve dois números circulando. Na manhã de 06/11, vários veículos publicaram o crédito de JCP de R$ 0,75197707687 por ação ordinária, excluídas as ações em tesouraria. A versão do Fato Relevante protocolada na CVM no fim da tarde traz R$ 0,74986562544. O total, R$ 2.636.971.532,99, é o mesmo nas duas. A diferença fica em cerca de R$ 0,002 por ação, ou R$ 2 a cada mil ações.
Dividindo o total pelos dois valores, o primeiro número pressupõe cerca de 3,507 bilhões de ações e o segundo cerca de 3,517 bilhões, quase 10 milhões de ações a mais. O documento não explica a revisão. Uma hipótese nossa é que a base passou a contar as ações emitidas na incorporação de ações da EMAE pela Sabesp, concluída em outubro. Seja qual for o motivo, o valor que vale é o da versão protocolada.
A SBSP3 vai cair no dia 11? Ela sumiu da corretora?
Não sumiu. A ação segue negociada normalmente na B3. No dia 11, porém, a cotação de abertura deve descontar mais ou menos o valor bruto do JCP, porque quem compra a partir daí não recebe o provento. Uma queda dessa ordem nesse dia é ajuste contábil, não notícia ruim. Fica registrada no extrato como "provisionado" e vira dinheiro quando a Sabesp pagar.
Isso também responde quem pensa em comprar só para pegar o JCP. O desconto na cotação come o provento, e o comprador ainda paga 17,5% de imposto sobre ele. A estratégia não fecha a conta. A questão que importa é outra: a Sabesp tem fôlego para continuar pagando assim?
Com lucro em queda e dívida em alta, esse JCP se sustenta?
Este é o ponto em que a notícia boa precisa de ressalva. Como mostramos na análise do resultado do 3T26 da Sabesp, a operação cresce, mas o lucro sofre com as despesas financeiras do plano de universalização. A dívida líquida está em 2,21 vezes o EBITDA, acima da mediana histórica de 2,03 vezes, e o investimento previsto para 2026 é de R$ 20 bilhões. Depois do trimestre, a Sabesp também contratou um empréstimo de R$ 4,9 bilhões.
- O payout ficou mais generoso: metade do lucro de nove meses, contra 30,3% de payout nos 12 meses até o 2T26.
- O JCP reduz o imposto da própria empresa. Se for todo dedutível dentro dos limites legais, a economia de IR e CSLL (34%) chega a cerca de R$ 897 milhões (estimativa nossa).
- O valor será abatido do dividendo mínimo obrigatório de 2026, então o obrigatório já está adiantado.
- O fluxo de caixa livre não cobre os proventos: o investimento pesado faz a empresa se financiar com dívida.
- O lucro do 3T26 caiu, e o JCP depende do lucro. Se as despesas financeiras continuarem subindo, a próxima rodada tende a ser menor.
O pagamento não ameaça o investimento, porque é pequeno perto do capex anual e ainda gera economia fiscal. O que mudaria o quadro é o lucro continuar encolhendo nos próximos trimestres. Para comparar como outras empresas usaram o JCP neste ano, vale ver a distribuição de JCP aprovada pela Telefônica Brasil. Cotação, histórico de proventos e documentos ficam na página de cotação e dividendos da Sabesp.
Para quem tem a ação, a notícia é positiva, com ressalva. Quem estiver posicionado em 10/11 garante cerca de 3% brutos sobre a cotação de 05/11, e a Sabesp mostrou disposição de distribuir metade do lucro. A ressalva é o prazo e o fôlego: o dinheiro só chega em 2027, sem correção, e sai de uma empresa com lucro em queda e dívida crescente. O provento não muda a tese de saneamento. O próximo trimestre dirá se o ritmo de pagamento se mantém.