A Sabesp informou, em release entregue à CVM na noite de 05/11, que o EBITDA ajustado do 3T26 cresceu 13,8% sobre o 3T25 e a receita ajustada, 9,0%. O lucro líquido ajustado, porém, recuou 13,8%. Para quem tem a ação SBSP3, a dúvida é por que a operação melhora e o lucro vai na direção oposta.
O que aconteceu com a ação SBSP3 no 3T26?
A Sabesp apresentou um trimestre de operação mais forte e lucro menor. Os números abaixo são os "ajustados", que a própria empresa usa: ela exclui receita de construção, bifurcação de ativos financeiros e efeitos não recorrentes — e, no lucro, também FAUSP e precatórios. A companhia mostra dois recortes. O orgânico não conta a EMAE; o reportado ajustado inclui a EMAE, cuja incorporação mostramos na nossa cobertura da conclusão do processo.
| R$ milhões | 3T25 | 3T26 orgânico | Var. | 3T26 com EMAE | Var. |
|---|---|---|---|---|---|
| Receita líquida ajustada | 5.468 | 5.958 | +9,0% | 6.095 | +11,5% |
| EBITDA ajustado | 3.206 | 3.648 | +13,8% | 3.680 | +14,8% |
| Lucro líquido ajustado | 1.284 | 1.107 | −13,8% | 1.138 | −11,4% |
| Fluxo de caixa operacional | 1.723 | 1.965 | +14,1% | 1.982 | +15,0% |
A margem EBITDA saiu de 58,6% para 61,2%, e a conversão do EBITDA em caixa operacional subiu de 50,2% para 53,9% (ambas sem EMAE). Ou seja, a Sabesp ganhou eficiência e transformou mais da geração operacional em dinheiro. Isso torna a queda do lucro ainda mais estranha, e é ela que o leitor precisa entender.
Os números "cheios" são bem diferentes dos ajustados. A receita reportada foi de R$ 10,1 bilhões, dos quais R$ 4,0 bilhões são receita de construção que a Sabesp retira da conta. O EBITDA reportado foi de R$ 3,98 bilhões, alta de 29,7%, contra os 13,8% do ajustado. Quem compara com a manchete de outro veículo precisa conferir qual das duas versões está olhando. Mas de onde vêm os 9,0% de receita?
De onde vem o crescimento da receita da Sabesp?
Quase todo ele é tarifa. Segundo o release, a receita ajustada subiu R$ 490 milhões, e o efeito preço responde pela maior parte, com contribuição menor do volume e uma perda de mix.
O efeito preço equivale a +7,7% sobre o 3T25. Ele embute um reajuste tarifário de 10,6%, parcialmente compensado por um maior volume de reformas. O volume (+2,1%) vem de novas economias (+2,2%) e da troca de hidrômetros (+0,4%), com o freio de temperatura e atividade econômica (−0,4%). O mix de categorias de clientes e de faixas de consumo tirou 0,8%, dos quais 0,6% ligados à temperatura. A Sabesp diz esperar que esses impactos sejam recuperados no ciclo tarifário de 2028 — uma expectativa dela, não um número garantido.
O recado é que a receita depende muito do reajuste. Com a tarifa fazendo o trabalho pesado, o que determina o resultado final passa a ser o que fica depois dos custos e da dívida. É aí que o lucro cai.
Se o EBITDA sobe, por que o lucro ajustado cai?
O release, nas páginas de resultados que analisamos, não abre a causa. O que se vê é a distância entre as duas linhas: o EBITDA ganhou R$ 442 milhões no orgânico (de 3.206 para 3.648) e o lucro ajustado perdeu R$ 177 milhões (de 1.284 para 1.107). Tudo o que separa um do outro — depreciação, resultado financeiro, impostos — pesou mais do que a melhora operacional. O documento não diz qual desses itens explica a queda, e não vamos supor.
O que o próprio material mostra como pano de fundo é o tamanho do endividamento e do investimento. A Sabesp registrou R$ 12 bilhões investidos nos nove primeiros meses de 2026, alta de 15% sobre o mesmo período de 2025. Investir mais com dívida alta costuma pressionar o resultado abaixo do EBITDA, mas essa relação é uma leitura possível, não uma explicação dada pela empresa. A resposta fechada deve vir do release completo ou do Q&A previsto na agenda da apresentação.
A dívida da Sabesp preocupa?
A Sabesp informou dívida bruta de R$ 46,4 bilhões e dívida líquida de R$ 38,6 bilhões. A diferença é o caixa: R$ 7,9 bilhões disponíveis, ou R$ 12,8 bilhões considerando o A/B loan, o que, segundo a companhia, cobre toda a amortização até 2029. Esse prazo é o argumento central da empresa: não há muro de vencimentos nos próximos anos.
- Caixa que, segundo a Sabesp, cobre as amortizações até 2029.
- Fluxo de caixa operacional crescendo mais que a receita (+14,1% contra +9,0%, orgânico).
- Lucro ajustado caindo em dois recortes, com ou sem EMAE.
- Receita sustentada sobretudo por reajuste tarifário, que depende de regulação.
A leitura interna da nossa redação para a tese é neutra: o trimestre não muda os fundamentos de longo prazo, mas também não resolve a pergunta sobre o lucro.
A SBSP3 sumiu da corretora, vai pagar dividendos e quanto vale?
Se você chegou aqui porque não achou a ação, ela não foi extinta: SBSP3 seguia negociando, com fechamento de R$ 25,01 em 05/11, queda de 0,87% no dia e de 5,35% em 12 meses. Esse preço é anterior ao release, entregue às 18h15 do mesmo dia; a primeira reação do mercado só aparece na sessão de 06/11. O que mudou no cadastro de alguns acionistas nas últimas semanas foi a incorporação da EMAE, que explicamos no link acima.
Sobre dividendos, o trecho do release que analisamos não traz anúncio de proventos; cotação e histórico ficam na página da ação com cotação, dividendos e documentos. Quanto ao preço-alvo, a última revisão que cobrimos foi a do Itaú BBA, em agosto — antes deste resultado. O Rico aos Poucos dá à SBSP3 nota de qualidade de 6,1 em 10.
A operação melhorou e o caixa cresceu, o que sustenta a tese de longo prazo. O lucro ajustado menor, porém, é o ponto que o mercado vai cobrar. Não há, neste release, motivo para decidir no impulso: falta a explicação do que consumiu o resultado entre o EBITDA e o lucro, e ela é o que separa um trimestre ruim isolado de uma tendência.
O que acompanhar daqui para a frente?
A reação da ação em 06/11 — o parâmetro é o fechamento de R$ 25,01 de 05/11, antes da divulgação.
A explicação do lucro — no release completo ou no Q&A, procure o que pesou entre o EBITDA e o lucro. Se a Sabesp apontar efeito pontual, o recuo perde peso; se for estrutural, ganha.
O ritmo do investimento — são R$ 12 bilhões em nove meses, com alta de 15% sobre 2025. Se subir mais com a dívida bruta já em R$ 46,4 bilhões, a pressão sobre o lucro tende a continuar.
A cobertura de caixa — a promessa é amortização coberta até 2029. Qualquer mudança nesse prazo nos próximos trimestres muda a leitura de risco.