Resultado da ação VAMO3 no 3T26: lucro triplica para R$ 150,9 milhões, segundo a Vamos — mas o que sustenta esse número? Relevância6,0
INTERMEDIÁRIO PTENES

VAMO3 resultado 3T26: lucro triplica e EBITDA tem recorde

Receita líquida avançou 4,3% enquanto o EBITDA bateu R$ 1 bilhão, mas venda de seminovos recuou 21,4% no período.

A Vamos informou à CVM, em 29/10, que o lucro líquido do 3T26 foi de R$ 150,9 milhões, três vezes o do ano anterior, e que o EBITDA passou de R$ 1 bilhão pela primeira vez. O resultado é bom, mas mais da metade do ganho antes do imposto veio de despesa financeira menor, e não de negócio crescendo mais rápido. Além disso, a venda de seminovos recuou.

O que a Vamos informou no resultado do 3T26?

No release entregue à CVM em 29/10/2026, a empresa por trás da ação VAMO3 relatou crescimento nas três linhas principais em relação ao 3T25: receita líquida de +4,3%, EBITDA de +15,7% e lucro de +199,1%. A administração afirma que o lucro é o maior em sete trimestres, obtido com CDI médio de 14,1% no período. A teleconferência com o mercado estava marcada para 30/10, às 11h.

R$ milhões3T263T252T26
Receita líquida1.594,21.529,01.564,3
EBITDA1.035,5895,0971,5
Margem EBITDA ajustada65,0%58,5%62,1%
Resultado financeiro-479,8-562,1-547,4
Lucro líquido150,950,4101,1
Dívida líquida11.723,111.959,911.561,1
Alavancagem (dívida líquida/EBITDA)2,93x3,27x3,00x

A receita cresceu pouco (4,3%), mas o EBITDA correu bem à frente, e é isso que explica a margem ter saltado 6,4 pontos percentuais em 12 meses. O lucro avançou muito mais do que o EBITDA, e a pergunta seguinte é por quê.

De onde veio o lucro que triplicou?

O lucro cresceu R$ 100,5 milhões sobre o 3T25. Em vez de olhar só o EBITDA, vale seguir a conta linha a linha, do resultado operacional (EBIT) até o imposto:

EBIT +R$ 69,4 mi+despesa financeira menor R$ 82,3 mi−IR maior R$ 51,4 mi≈lucro +R$ 100,5 mi

A soma dá R$ 100,3 milhões, e a diferença de R$ 0,2 milhão é arredondamento do release. O EBITDA subiu R$ 140,5 milhões, mas a depreciação e amortização cresceu R$ 71,1 milhões (+26,0%), e por isso o EBIT avançou só 11,2%. Metade do ganho operacional ficou no caminho, o que é o custo de uma frota maior e mais nova.

Quem fez a diferença foi o resultado financeiro: a despesa líquida caiu 14,7% em 12 meses, mesmo com juros altos. O trecho do release a que tivemos acesso não detalha o motivo dessa queda, e é o ponto que mais vale perguntar na teleconferência. Já o imposto trabalhou contra: a alíquota efetiva foi de 28,7%, contra 15,6% no 3T25, que estava bem abaixo dos 24,4% dos nove meses de 2025. Ou seja, a comparação com o ano anterior foi feita contra um imposto atipicamente baixo, e o lucro cresceu apesar disso. Mas a locação rendeu tanto assim? Depende do que está sendo vendido.

A VAMO3 vendeu imóvel? O que cai no resultado é a venda de ativos

No trecho do release que analisamos, não há menção a venda de imóvel. O que aparece é a venda de ativos da frota: R$ 310,3 milhões no trimestre, queda de 21,4% sobre o 3T25. Só os seminovos somaram R$ 301,0 milhões (-23,8%) e passaram de 25,8% para 18,9% da receita líquida. O restante vem de uma linha separada, "venda de ativos (CPC-06)", de R$ 9,3 milhões.

O contraponto é que a locação, receita recorrente, avançou 11,4% e subiu de 67,9% para 72,6% do total. É um mix de melhor qualidade, mas a venda de seminovos é parte da operação e a ação costuma reagir à velocidade com que esses ativos giram. A frota ficou em 51.751 ativos, 0,6% menor que um ano antes e 1,0% maior que no 2T26. A indústria somou R$ 130,5 milhões de receita (+28,3%), com EBITDA industrial de R$ 16,0 milhões contra R$ 5,6 milhões. Ainda é peça pequena do todo. E a dívida, que sempre pesou sobre a tese, melhorou?

A alavancagem de 2,93x resolve a preocupação com a dívida?

Ajuda, mas a dívida em si quase não saiu do lugar. A dívida líquida caiu 2,0% em 12 meses e subiu 1,4% sobre o 2T26. A alavancagem recuou cerca de 10% (de 3,27x para 2,93x), então a maior parte da melhora veio do EBITDA dos últimos 12 meses ter crescido, e não de pagamento de dívida. A administração diz que o número ficou abaixo da meta de 3,0x para dezembro de 2026.

O capex mostra por que isso importa. O capex contratado, ou seja, a demanda fechada, foi de R$ 1.179,9 milhões (+42,1% em 12 meses, mas -11,1% frente ao 2T26). O implantado, que de fato vira ativo e consome caixa, foi de R$ 965,0 milhões, alta de 25,2% sobre o trimestre anterior. A administração diz que as montadoras estão entregando mais ativos. Se a implantação continuar acelerando, a dívida deixa de cair com tanta folga. O retorno ajuda a absorver isso, já que o ROIC de 13,7% fica 3,1 pontos percentuais acima do custo da dívida (o spread era 3,3 no 3T25).

O que isso muda para quem tem a ação VAMO3?

O release confirma que a virada de lucro, iniciada no 3T25 segundo a própria administração, segue de pé. Ele não diz como o mercado vai reagir: as fontes não trazem a cotação depois da divulgação, e a ação chega ao resultado depois de uma queda forte, como mostramos na cobertura da queda da ação em outubro. Números melhores não garantem recuperação da cotação, porque o preço também responde a juros e eleição.

O que isso muda para quem tem a ação

A tese de desalavancagem ficou mais crível, e o lucro tem sustentação operacional, mas depende em boa parte de despesa financeira menor. Para quem já tem a ação, nada obriga a agir hoje. O risco que sobra está nos seminovos, no capex e nos juros, e não no EBITDA do trimestre.

Quem compara o setor pode ler o resultado recente da concorrente na nossa análise do lucro recorde da Movida, e os documentos da companhia estão reunidos na página da ação VAMO3.

O que acompanhar daqui para a frente?

1

Alavancagem — a meta da própria companhia é 3,0x em dezembro de 2026; o 3T26 fechou em 2,93x. Voltar acima de 3,0x muda a leitura.

2

Venda de seminovos — R$ 301,0 milhões no 3T26, abaixo do 2T26 (R$ 358,7 milhões). Nova queda pressiona a receita.

3

Capex implantado — R$ 965,0 milhões no trimestre; se continuar subindo sem o EBITDA acompanhar, a dívida líquida volta a subir.

4

Resultado financeiro — despesa de R$ 479,8 milhões no 3T26; se voltar à faixa dos R$ 547,4 milhões do 2T26, boa parte do ganho de lucro se desfaz.