Se as reservas mundiais em dólar caíram de cerca de 70% para perto de 50% ao longo das últimas décadas, e o assunto "desdolarização" volta a cada nova rodada de sanções e a cada declaração do bloco BRICS, uma pergunta incomoda o investidor brasileiro: ainda faz sentido carregar dólar na carteira em 2026? Janet Yellen — ex-presidente do Fed e ex-secretária do Tesouro dos EUA — subiu ao palco da Expert XP 2026, em São Paulo, para responder exatamente a essa tensão. E a resposta dela foi direta.
A frase que resume a fala: "Não existe moeda que possa substituir o dólar. Nenhum outro mercado tem sua profundidade e liquidez." O recado de Yellen não é que o dólar seja eterno — é que não há, hoje, candidato pronto para ocupar o trono.
Por que o dólar ainda domina
A supremacia do dólar não é um capricho político nem uma imposição militar. Ela é sustentada por uma engenharia financeira que nenhum outro país conseguiu replicar. Quatro pilares explicam a inércia:
1. Profundidade e liquidez dos Treasuries. O mercado de títulos do Tesouro americano é o maior e mais líquido do planeta — trilhões de dólares que um banco central, uma seguradora ou um fundo soberano consegue comprar ou vender sem mover o preço de forma relevante. Quando um país acumula reserva, ele precisa de um lugar seguro e enorme para estacionar dinheiro. Não existe equivalente em yuan, euro ou iene com essa escala e essa liquidez combinadas. É isso que Yellen quis dizer com "profundidade".
2. A rede de liquidação em dólar. A infraestrutura global de pagamentos — do sistema SWIFT ao acesso a dólar via linhas de swap do Fed — está calibrada para o dólar. Trocar de trilho custa caro, é lento e exige coordenação entre países que muitas vezes não confiam uns nos outros.
3. Commodities cotadas em dólar. Petróleo, minério, grãos e boa parte do comércio internacional são precificados em dólar. Enquanto o barril for negociado em USD, todo país importador precisa de dólar em caixa — uma demanda estrutural que não depende de simpatia pelos Estados Unidos.
4. Inércia institucional e efeito de rede. Uma moeda de reserva vale porque todos a usam — e todos a usam porque ela é aceita por todos. Quebrar esse círculo exige um choque brutal ou uma alternativa nitidamente superior. Nenhuma das duas coisas está sobre a mesa em 2026.
O que está corroendo essa dominância
Reconhecer os pilares não significa ignorar as rachaduras. Yellen foi honesta ao apontar que a fatia do dólar encolheu — e boa parte dessa erosão tem raiz geopolítica, não econômica.
O ponto sensível — sanções como arma. Yellen atribuiu parte da diversificação das reservas às sanções impostas aos ativos russos em 2022. Ao ver as reservas de um banco central serem congeladas, outros países — sobretudo os que temem atrito futuro com Washington — passaram a se perguntar: "e se um dia for comigo?" O medo da weaponização do sistema financeiro empurrou governos para alternativas que ninguém pode congelar.
Dessa lógica nascem os movimentos de erosão:
- Ouro. É o ativo que nenhum governo estrangeiro consegue bloquear. Por isso o dado revelado pelo BCE choca: nas reservas dos bancos centrais mundiais, o ouro (27%) já supera os Treasuries (22%). Não é os EUA perdendo a coroa — é os BCs comprando um seguro contra sanção.
- Yuan digital e BRICS+. A China avança com trilhos próprios de pagamento e com a moeda digital, e o bloco BRICS discute mecanismos de comércio fora do dólar. Mas o próprio número denuncia o tamanho do desafio — o yuan representa apenas cerca de 1% das reservas globais. Vontade política não fabrica, do dia para a noite, a liquidez que o dólar levou 80 anos para construir.
- O paradoxo das stablecoins. Aqui está a virada mais contraintuitiva da fala. Poderia parecer que as criptomoedas ameaçam o dólar — mas as stablecoins, hoje majoritariamente lastreadas em dólar, fazem o oposto: reforçam a hegemonia americana. Cada stablecoin em dólar precisa de dólar ou Treasury como lastro, o que cria nova demanda pela moeda e leva o dólar digital a bilhões de pessoas fora do sistema bancário tradicional. É um movimento anti-desdolarização disfarçado de inovação cripto.
A leitura correta, portanto, é de diversificação lenta, não de substituição. O dólar perde participação relativa — mas continua sem rival à altura, e algumas das forças ditas "concorrentes" acabam alimentando a própria demanda por USD.
O que Yellen disse na Expert XP 2026
Na São Paulo Expo, entre 23 e 25 de julho, Yellen costurou esses pontos num diagnóstico sóbrio. Reafirmou a insubstituibilidade do dólar, mas emoldurou o cenário com uma frase que define a década: "estamos vivendo uma sequência contínua de choques" — pandemia, guerra, sanções, ruptura de cadeias e agora a guerra comercial.
Sobre as tarifas de Trump, foi cirúrgica: refletem "visões pessoais de longa data" do presidente, e não um diagnóstico econômico. A leitura importa para o investidor porque tarifa movida por convicção política, e não por dado, tende a ser mais imprevisível e mais duradoura — exatamente o tipo de ruído que fortalece ativos defensivos e a própria demanda por dólar em momentos de aversão a risco.
| Força | Direção | Efeito sobre o dólar |
|---|---|---|
| Liquidez dos Treasuries | Sustenta | Âncora estrutural — sem rival |
| Commodities em USD | Sustenta | Demanda permanente por dólar |
| Sanções / weaponização | Corrói | Empurra BCs para ouro e diversificação |
| Ouro nas reservas | Corrói | Seguro anti-sanção (27% > 22% dos Treasuries) |
| Yuan / BRICS+ | Corrói (marginal) | Só ~1% das reservas — longe de rivalizar |
| Stablecoins em USD | Sustenta | Paradoxo: reforçam a hegemonia |
O que isso significa para o investidor brasileiro
Para quem investe em reais, a mensagem prática é a mais importante do texto. A tese de ter dólar na carteira nunca foi apostar que o dólar seria eterno — foi contratar proteção contra o risco de estar 100% exposto a uma moeda emergente, volátil e sensível a fiscal e a juros locais. Nada na fala de Yellen enfraquece essa lógica; pelo contrário, ela a reforça.
Dolarizar parte da carteira, na prática, significa ter exposição a ativos denominados em dólar. Alguns caminhos:
- ETFs na B3. O IVVB11 replica o S&P 500 em reais e entrega, de uma tacada, exposição à bolsa americana e ao câmbio — sem precisar abrir conta lá fora. Para quem quer o dólar sem a volatilidade de renda variável, ETFs de renda fixa global (como BNDX11 e afins) atacam mais o lado câmbio + juros do que o lado ações.
- Conta e corretora no exterior. Para patrimônios maiores, abrir conta fora dá acesso direto a Treasuries, ETFs globais e dólar em espécie, ao custo de mais burocracia (câmbio, imposto, declaração).
- Fundos cambiais e BDRs. Alternativas que também carregam a moeda, cada uma com sua camada de custo e tributação.
O risco que não pode ser ignorado — câmbio corta dos dois lados. O dólar é proteção no longo prazo, mas oscila forte no curto. Se o real se valorizar, a posição dolarizada perde valor em reais no papel. Por isso dólar é alocação estrutural e de horizonte longo — não trade de timing. Entrar tentando "acertar o fundo" do câmbio costuma terminar em arrependimento.
Nossa tese: por que seguimos Otimistas no Dólar
No Rico aos Poucos, o Dólar ocupa 25% da alocação-referência de maio/2026, com sentimento Otimista — a maior fatia da nossa cesta, empatada com Imóveis. A fala de Yellen valida três razões pelas quais mantemos essa convicção:
- Não há substituto à vista. A profundidade dos Treasuries e a rede de liquidação em dólar não têm concorrente pronto. O yuan em ~1% das reservas confirma que a "desdolarização" é narrativa mais rápida que realidade.
- O regime de choques favorece o dólar. Em cada susto global, o capital corre para o dólar. Uma "sequência contínua de choques", como Yellen descreveu, é justamente o ambiente em que a moeda de reserva se valoriza.
- Proteção contra o risco Brasil. Independentemente do que acontece nos EUA, o investidor daqui carrega risco fiscal e político local. Dólar é o hedge natural — e a diversificação global dos BCs para ouro e USD mostra que até governos fazem o mesmo movimento.
Nossa leitura. Yellen não desmentiu a erosão — ela contextualizou. O dólar perde participação relativa de forma lenta, empurrado por medo de sanção, não por uma moeda melhor. Enquanto não existir um mercado com a profundidade dos Treasuries, o dólar segue como âncora do sistema e como o hedge mais eficiente para quem investe em reais. Por isso mantemos os 25% em Dólar com sentimento Otimista: não é aposta em superioridade eterna dos EUA — é reconhecer que, na ausência de rival, e num mundo de choques em série, o dólar continua sendo o porto mais seguro da carteira do brasileiro.
Fontes
- Janet Yellen — Expert XP 2026, São Paulo Expo (23 a 25 de julho de 2026). Cobertura em vídeo pela InfoMoney: youtube.com/watch?v=rzeTH9zCDpo
- Dados de composição de reservas de bancos centrais citados na fala (participação do dólar, do yuan e do ouro vs Treasuries), conforme referências do Banco Central Europeu (BCE).