Por que a AZZA3 caiu depois da eleição?
A AZZA3 caiu junto com todo o varejo no primeiro pregão depois da vitória de Lula (26/10), quando os juros futuros longos passaram de 16% e a bolsa abriu em forte queda. Não houve balanço novo: o papel foi de R$ 24,10 (15/10) a R$ 14,47 (29/10).
Os números de 15/10 e 29/10 vêm da cobertura do Money Times (cotação às 12h50) e da página do BTG Pactual (dados de 29/10). O −37,3% foi medido às 10h57 de 26/10, ou seja, é um número de meio de pregão, não de fechamento. A mínima de 52 semanas de R$ 14,30 consta no cadastro da ação e no QuantBrasil.
O que aconteceu com o varejo no dia 26/10
Lula venceu Flávio Bolsonaro com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21%. No primeiro pregão seguinte, o Ibovespa abriu com queda superior a 13%, o dólar e os juros futuros dispararam e as ações ligadas a consumo e a crédito estiveram entre as mais atingidas. Os números abaixo são do meio da manhã, segundo o Guia do Investidor:
| Ação | Queda intradiária em 26/10 |
|---|---|
| Assaí (ASAI3) | −48,4% |
| Magazine Luiza (MGLU3) | −48% |
| Lojas Renner (LREN3) | −38% |
| Azzas 2154 (AZZA3) | −37,3% |
O BTG registra que as ações brasileiras de varejo haviam subido 19% depois do primeiro turno e devolveram o ganho, com queda de 33% do setor. A matéria do Guia do Investidor ressalva que os números do pregão, sozinhos, não permitem concluir como o resultado eleitoral afetará o resultado operacional da companhia.
O canal pelo qual o juro chega a uma empresa como a Azzas é direto: a companhia tem R$ 2,13 bilhões de dívida líquida (1,52 vez o Ebitda de 12 meses), segundo o balanço do 2T26, e parte da receita vem de lojistas multimarca que dependem de crédito. Juros futuros mais altos também elevam a taxa com que o mercado desconta lucros futuros de qualquer empresa.
A CBS de 11,3%: o que foi proposto e o que ainda não se sabe
Em 28/10, o Tribunal de Contas da União aprovou por unanimidade o cálculo que propõe alíquota de 11,3% para a CBS em 2027 (resultado do arredondamento de 11,3468%). A CBS substitui o PIS e a Cofins, que hoje somam 3,65% no regime de lucro presumido e 9,25% no de lucro real. A alíquota proposta é maior que as estimativas anteriores: 8,8% (Fazenda, em 2024) e 9,21% (referência não oficial do Comitê Gestor do IBS).
O que está definido: o Senado tem até dezembro para fixar a alíquota por resolução (as fontes divergem entre os dias 15 e 22); se não votar, vale o cálculo do TCU a partir de 1º de janeiro de 2027. A transição para o novo modelo de consumo vai até 2033, com a entrada gradual do IBS, e o governo estima arrecadar R$ 636 bilhões com a CBS em 2027. O Imposto Seletivo também começa em 2027, mas incide sobre tabaco, bebidas alcoólicas e bebidas açucaradas, não sobre moda.
O que ainda não está definido ou medido:
- Efeito no preço ao consumidor. O presidente do TCU afirmou que o número reflete a arrecadação prevista, e não o efeito sobre preços ou setores.
- Créditos. CBS e IBS são não cumulativos: o imposto pago na compra de mercadorias vira crédito na venda. O resultado final para cada empresa depende desses créditos, e os percentuais de créditos presumidos ainda estão pendentes.
- Vestuário e calçados. Nas fontes consultadas não há menção a regime especial ou alíquota reduzida para o setor.
- Prazo de adaptação. Tributaristas citados pela imprensa do setor apontam pouco tempo para reajustar preços, contratos e sistemas.
Para a Azzas, a empresa não divulgou estimativa do impacto da CBS em seus resultados.
O que a empresa informou nos últimos meses
Nada disso muda o balanço já publicado, que mostrava o ano de 2026 mais fraco que 2025 antes da eleição. O resumo do 2T26, comparado ao mesmo trimestre de 2025:
| 2T26 (abr–jun) | Valor | Variação anual |
|---|---|---|
| Receita líquida | R$ 2,6 bi | −8,2% |
| Ebitda recorrente | R$ 379,6 mi | −29,1% |
| Margem Ebitda | 14,2% | −4,3 p.p. |
| Lucro líquido recorrente | R$ 106,5 mi | −62,5% |
| Lucro contábil | R$ 29,8 mi | −94,5% |
No 1T26, o lucro recorrente havia sido de R$ 63,9 milhões (−45,7%). Em 2025 inteiro, foram R$ 770,7 milhões. A companhia atribuiu a queda do 2T26 ao recuo do "sell-in" (vendas a lojistas multimarca, de alta margem), que caiu 13,6%, enquanto o "sell-out" (venda ao consumidor final) recuou 1,9%. Mais detalhes na análise do resultado do 2T26.
Cisão e Farm Rio: em que pé está
A cisão em Arezzo&Co e Soma foi anunciada em 2/9 e teve aval do Cade, sem restrições, em 15/10. Ainda dependem de assembleia, do aval do conselho e da autorização da B3 para listar a Soma no Novo Mercado. Não há data de assembleia divulgada, e a companhia informou que a cisão parcial não dá direito de retirada. A Farm Rio ficaria em empresa conjunta, com 57,4% da Arezzo&Co e 42,6% da Soma. Veja os detalhes em como funciona a cisão.
Sobre a venda da Farm Rio, o que se sabe:
- A marca recebeu 15 propostas não vinculantes, entre R$ 3,5 bilhões e R$ 4 bilhões, abaixo dos R$ 4,5 bilhões a R$ 5,5 bilhões que os controladores buscavam (Valor, via Guia do Investidor).
- O prazo apontado para propostas vinculantes é 31/10.
- Em resposta à CVM, a Azzas informou que não recebeu proposta vinculante nem tomou decisão sobre transação.
- Os controladores já admitiram permanecer como sócios da marca se não receberem oferta considerada adequada.
O que os analistas dizem
BTG Pactual e XP têm recomendação de compra com preço-alvo de R$ 40. A página do BTG, com data de 29/10, ainda mostra esse valor; não há indicação pública de revisão depois da eleição. JP Morgan e Citi avaliam a cisão como positiva, mas mantêm recomendação neutra. Do lado das apostas contra o papel, o Bradesco BBI registrou 9,18% do free float emprestado, com taxa de aluguel de 14,01%, o que o banco interpreta como visão ainda cautelosa dos investidores.
- 31/10: prazo apontado para propostas vinculantes pela Farm Rio, e o comunicado da companhia se houver proposta.
- 3 e 4/11: reunião do Copom; a Selic está em torno de 14%.
- Balanço do 3T26: data ainda não confirmada.
- Senado e CBS: resolução da alíquota até dezembro, com os percentuais de créditos presumidos.
- Assembleia da cisão: edital e proposta da administração, com a divisão de dívida, caixa e créditos fiscais entre Arezzo&Co e Soma, ainda não divulgada.