A ANP informou nesta terça-feira (3) que o Brasil produziu 4,711 milhões de barris de petróleo por dia em setembro, o quarto recorde mensal consecutivo. Para quem tem ações de petroleiras, o volume é a metade boa da conta; a outra metade, o preço do Brent, nenhuma empresa controla.
O Brasil produziu mais petróleo em setembro do que em qualquer mês anterior?
Sim, e com folga sobre o recorde anterior. Segundo o Boletim Mensal da Produção da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, setembro ficou 2,1% acima de agosto, o mês que já tinha batido o recorde anterior. É o quarto mês seguido em que a marca é quebrada.
A comparação com um ano atrás mostra o tamanho do movimento: a produção está 20,3% acima de setembro de 2025. Fazendo a conta com os números da ANP, o país produzia cerca de 3,9 milhões de barris por dia naquele mês e acrescentou perto de 800 mil barris diários em doze meses. Um quinto a mais de petróleo saindo do chão (ou melhor, do fundo do mar) em um ano não é variação de mês bom, é mudança de patamar.
Mas quem trouxe esses barris novos? A resposta explica também por que a notícia pesa de forma diferente para cada empresa.
Quem puxou o recorde: o pré-sal da Petrobras e um campo da Equinor
A ANP aponta como principais responsáveis os campos do pré-sal na Bacia de Santos. Búzios manteve a liderança entre os produtores, seguido por Tupi e Mero. Os três são operados pela Petrobras e, juntos, respondem por mais da metade da produção brasileira de petróleo. Pela conta com os valores abaixo, são cerca de 60% do total.
O quarto nome da lista é o que mais mudou no mês. Bacalhau é operado pela norueguesa Equinor, não pela Petrobras, e deu o maior salto proporcional entre os campos citados pela ANP. Em meados de setembro, o presidente da Equinor, Anders Opedal, disse em uma conferência que a plataforma FPSO Bacalhau produzia perto da capacidade de 220 mil barris por dia e deveria chegar a esse patamar de "platô" ainda este ano.
Foram 30,1 mil barris a mais por dia, alta de 26,4% em um mês. Ainda assim, o número da ANP para setembro equivale a cerca de 65% da capacidade da plataforma. Faltam 75,8 mil bpd para o platô de que falou o executivo da Equinor. Se esse volume entrasse integralmente, tudo mais constante, ele sozinho elevaria a produção nacional em cerca de 1,6% sobre o nível de setembro. O recorde, portanto, ainda não esgotou o que já está instalado.
E o gás natural? O total em barris equivalentes também bateu recorde?
Também. A ANP informou produção de petróleo e gás natural somados de 6,120 milhões de barris de óleo equivalente por dia (boe/d) em setembro. O recorde anterior era o de agosto, mês em que o total passou dos 6 milhões de boe/d pela primeira vez. O número confirma os dados preliminares que o Broadcast, sistema de notícias do Grupo Estado, havia antecipado na semana passada.
Só o gás natural chegou a 223,98 milhões de metros cúbicos por dia, alta de 1,6% sobre agosto e de 17,5% sobre setembro do ano passado. O gás cresce em ritmo um pouco menor que o do petróleo (20,3% em doze meses), o que ajuda a entender por que a notícia gira em torno do barril. A pergunta que interessa a quem tem ação é outra: esse volume todo vira lucro?
Recorde de produção significa mais lucro para a Petrobras e para as petroleiras?
Não automaticamente. A receita de uma petroleira é, grosso modo, volume vezes preço, e a ANP só mede a primeira parte. Na rodada desta terça-feira, o Brent aparecia a US$ 103,36 por barril, com queda de 1,35% no dia. Com o barril nesse nível, mais produção tende a ser mais caixa; se o preço recuasse com força, o ganho de volume seria parcialmente consumido. Como mostramos na cobertura do recuo do petróleo com as negociações entre EUA e Irã, a cotação pode se mover rápido por motivos que nada têm a ver com a produção brasileira.
Há ainda uma distinção que a manchete esconde: o número da ANP é do país, não de uma empresa. Búzios, Tupi e Mero são operados pela Petrobras, mas Bacalhau, que mais cresceu no mês, é da Equinor. Para medir o efeito na companhia brasileira, o dado certo é o da própria Petrobras, como no recorde de produção que a empresa divulgou em outubro.
A conta tem também um lado externo. Mais petróleo do pré-sal fortalece a pauta exportadora brasileira mesmo quando as cotações internacionais oscilam, e o país já vinha batendo marca nos embarques, como detalhamos na matéria sobre o volume recorde de exportação de petróleo em setembro.
O dado reforça os fundamentos operacionais das produtoras de energia listadas na B3: a tese de que o volume está crescendo segue de pé. Ele não é, sozinho, motivo para comprar ou vender. O que decide o resultado do trimestre é esse volume combinado com o Brent e o dólar. Quem já tem a ação não precisa fazer nada por causa deste boletim; quem pensa em entrar deve olhar o preço do barril antes de olhar o recorde.
O que acompanhar daqui para a frente?
O boletim de setembro é retrato do passado, e o que importa agora é se a sequência de recordes continua. Para acompanhar o preço do outro lado da conta, o painel do preço do petróleo hoje mostra a cotação atualizada.
Bacalhau rumo ao platô — a produção de setembro foi de 144,2 mil bpd; a Equinor fala em 220 mil bpd ainda este ano. Cada passo nessa direção sustenta a alta do país.
Quinto recorde seguido? — o próximo boletim da ANP, com os dados de outubro, mostra se a produção segue acima dos 4,711 milhões de bpd de setembro. Número menor não derruba a tese, mas quebra a sequência.
Brent — o barril estava em US$ 103,36 nesta rodada. É o preço que transforma volume em receita; um recuo forte reduz o efeito do recorde no lucro das produtoras.
Oferta global — decisões da OPEP+ mexem no preço, e nossa leitura sobre a manutenção da produção da OPEP+ em dezembro mostra o que está sendo segurado do lado de fora.