Rico aos Poucos

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CARE11 — B3 estranha oscilação e volume atípicos da cota de fundo de cemitérios zerado há quase 5 anos
B3 oficia o CARE11 sobre oscilação atípica; Mérito DTVM responde que não sabe de nada.
Esclarecimento B3 Volume atípico Mai/2026

CARE11: a B3 cobra explicação por uma oscilação atípica da cota — e a administradora responde que não sabe de nada

O CARE11 — fundo de cemitérios da Cortel sem distribuir um centavo de dividendo há quase cinco anos — vinha caindo ao longo de 2026 (de cerca de R$ 4,40 em abril para R$ 3,20 no fechamento de 08/05) e teve um pregão de volume anômalo: 84 mil cotas negociadas num dia, contra as poucas centenas de costume, com forte oscilação intradiária. Em 08/05/2026 a B3 mandou o Ofício 098/2026-SLE pedindo esclarecimentos sobre essa oscilação atípica e o aumento do volume. Em 11/05/2026 a resposta chegou — assinada pela Mérito DTVM, administradora do fundo — e cabe em uma frase: "não possui conhecimento de qualquer informação que possa justificar as citadas oscilações atípicas". Num fundo cuja tese inteira depende de um evento extraordinário na Cortel, esse "nada a declarar" é, em si, informação.

⚠️ O que aconteceu, em uma frase

Um fundo que ficou anos travado começou a se mexer no mercado, a B3 estranhou o movimento o suficiente para abrir um ofício oficial, e a administradora respondeu o que se responde quando não há fato relevante a comunicar: nada. Em FII normal isso seria rotina. No CARE11, que não paga dividendo desde setembro de 2021 e cuja tese inteira depende de um evento extraordinário (IPO da Cortel, venda da participação ou início de distribuição), esse "nada" é informação.

O ofício da B3 — e a resposta que chega sem chegar

Em 08/05/2026 a B3 enviou à administradora do Brazilian Graveyard and Death Care Services FII o Ofício 098/2026-SLE, endereçado a Marcos Alexandre Ikuno, diretor responsável pelo fundo. O texto é o padrão que a Bolsa usa quando dispara o radar de oscilações atípicas: "Tendo em vista as últimas oscilações registradas com as cotas de emissão do fundo, o aumento do número de negócios e da quantidade negociada (...), vimos solicitar que nos seja informado até 11/05/2026, se há algum fato do conhecimento dessa administradora que possam justificá-las".

A resposta da administradora, no prazo (11/05/2026), também é padrão: "a Mérito DTVM informa que não possui conhecimento de qualquer informação que possa justificar as citadas oscilações atípicas apontadas nas Cotas do Fundo nos termos do Ofício". E o tradicional "manterá os Cotistas (...) e o mercado em geral informados sobre qualquer ato ou fato relevante".

Tradução prática: se houve gatilho, ele não passou pela mesa do administrador. O que sobra como leitura razoável da movimentação — uma cota que vinha caindo no ano e teve um pregão de volume muito acima do normal e oscilação intradiária forte — é alguma combinação de: (i) reposicionamento/saída de um detentor relevante num book historicamente raso, onde poucos negócios movem o preço de forma desproporcional; (ii) compra ou venda "informada" antecipando algum evento (IPO da Cortel, venda da participação, retomada de DPS — ou a falta deles) que ainda não virou fato relevante divulgado; (iii) simples ruído de liquidez de um fundo esquecido, em que um único lote grande distorce o pregão.

A foto que justifica a estranheza

R$ 3,65
Cotação (13/05/2026)
R$ 3,20
Fechamento em 08/05 (dia do ofício)
84.484
Cotas negociadas em 08/05 (pico anômalo)
~R$ 6,93
VP/cota
R$ 0,00
Dividendo mensal
56+
Meses sem distribuir
R$ 249,4 Mi
Patrimônio Líquido
6.772
Cotistas

A cota negocia em torno de 47% abaixo do valor patrimonial por cota (P/VP ~0,53 a R$ 3,65; ~0,46 no fechamento de R$ 3,20). E, ao contrário do que uma leitura apressada poderia sugerir, esse desconto aumentou ao longo de 2026: a cota partiu de cerca de R$ 5,70 em janeiro e foi caindo. O mercado não passou a pagar mais pelo papel — passou a pagar menos, e o ofício da B3 mira justamente o como esse movimento aconteceu (oscilação e volume atípicos), não uma valorização inexistente.

Por que esse "nada a declarar" pesa mais aqui

Para a maioria dos fundos, o ofício de oscilação atípica é uma formalidade. O preço pula porque saiu rendimento melhor que o esperado, porque um relatório de uma casa influente recomendou compra, porque saiu um fato relevante de aquisição. A B3 pergunta, a administradora confirma "tudo isso já está público", segue o jogo.

No CARE11, o ponto de partida é diferente. Esse é um fundo cuja tese vive dependurada em três gatilhos teóricos:

  1. O IPO da Cortel Holding — registrado lá em 2020, jamais concretizado. Os 19,92% que o fundo detém da Cortel (cerca de R$ 157,6 milhões, a maior parte do patrimônio) são completamente ilíquidos sem esse evento.
  2. A venda estratégica da participação — algum player do setor death care comprando a fatia do fundo. Nunca anunciada.
  3. O início (ou retomada) da distribuição de lucros pela Cortel para os sócios — o que reabriria a torneira de DPS para os cotistas do CARE11. Nada disso foi sinalizado.

O fundo carrega 2.798 jazigos no Cemitério do Morumby (em São Paulo), com venda historicamente lenta — 74 unidades em ~17 meses, ritmo de ~4,4 por mês — e recebíveis de um empreendimento imobiliário vendido em 2022 que pingam até 2032 (cerca de R$ 2,6 milhões em 2026). Nada disso, sozinho, explica um pregão de volume tão fora da curva nem a oscilação brusca da cota. Algo precisaria estar no horizonte para mover o papel desse jeito. E o administrador acabou de dizer, oficialmente, que não vê esse algo.

📌 Três leituras possíveis — todas exigindo cuidado

  • Ruído técnico em book fino: poucos lotes negociados movem muito a cota. Plausível, dado que o fundo tem cerca de 36 milhões de cotas e um flutuante pequeno — em dias normais negociam-se poucas centenas de cotas, então um único lote grande (como as 84 mil de 08/05) distorce preço e volume de uma vez. Nesse cenário, o "valor justo" não mudou; só a fricção do mercado mudou.
  • Movimentação ligada a evento: alguém entrando ou saindo na expectativa (ou frustração) de IPO da Cortel, venda estratégica ou retomada de DPS. Em qualquer direção, a aritmética operacional segue a mesma — prejuízo de R$ 37,5 mi em 2024, taxa de ~1,55% a.a. corroendo o PL sem rendimento — então o movimento de preço não nasce de fundamento divulgado.
  • Posicionamento informado: o cenário mais incômodo. Alguém negociando com informação que o mercado ainda não tem. Se for, vira problema regulatório — e foi exatamente isso que o Ofício 098/2026-SLE tentou flushar.

Em qualquer um dos três cenários, o cotista pequeno que se mexe agora com base no movimento de preço está reagindo a uma aposta cujos termos ele não controla.

O pano de fundo de governança: uma troca de administrador que não foi tranquila

A resposta à B3 vem assinada pela Mérito Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários Ltda., "na qualidade de administradora do Fundo" — e ela é, de fato, a administradora do CARE11. A administração foi transferida em julho de 2025 da Trustee DTVM para a Mérito DTVM. O ponto que pesa não é quem assina, e sim como essa transição correu.

A troca foi conturbada: o administrador anterior reteve documentos do fundo e atrasou a divulgação das Demonstrações Financeiras auditadas de 2025. Para o cotista, isso significa menos transparência justamente no período em que o fundo mais precisaria dela — um veículo sem rendimento, com a maior parte do patrimônio travada em participação ilíquida na Cortel, e agora sob escrutínio da B3 por oscilação atípica.

Some-se a isso o quadro estrutural e o desconforto fica claro: iliquidez do ativo central, ausência de DPS há quase cinco anos, dependência total de um destravamento de valor na Cortel — e uma transição administrativa que entregou atrito em vez de continuidade.

📌 O que está confirmado no documento

Confirmado pelo documento (Esclarecimentos de Consulta B3/CVM protocolado em 11/05/2026, ID Fundos.NET 1185624): existência do Ofício 098/2026-SLE da B3 de 08/05/2026 sobre oscilação atípica e aumento de volume; resposta da administradora dizendo que não há fato relevante a comunicar; assinatura institucional pela Mérito DTVM, administradora do fundo desde a transferência da Trustee DTVM em julho/2025. O histórico da transição conturbada (retenção de documentos pelo administrador anterior e atraso das DF auditadas de 2025) está registrado na análise canônica do CARE11.

Como o cotista deveria ler isso

Se você é cotista do CARE11 e está vendo a oscilação atípica da cota:

  • Não é fato relevante. A própria administradora oficializou isso por escrito ao regulador. Tratar o movimento de preço como confirmação (ou negação) de tese é apostar contra o que o administrador acabou de comunicar à B3.
  • O risco operacional não mudou. O fundo continua sem DPS, com a maior parte do PL travada na Cortel ilíquida, com prejuízo operacional e venda lenta de jazigos. A cota oscilou; nada do que justifica o desconto sumiu.
  • Volume baixo + flutuante pequeno cortam nos dois lados. Num book em que poucos negócios movem o preço, um único lote grande joga a cota para qualquer direção — para baixo, como no pregão de 08/05, ou para cima — sem que nada de fundamental tenha mudado.
  • Quem entrou apostando em destravamento (IPO da Cortel, venda) precisa monitorar três coisas: novos fatos relevantes do fundo, qualquer comunicado da Cortel Holding e a normalização da governança (entrega das DF auditadas de 2025). Sem nenhum desses, a tese é só preço oscilando.

📊 Veredicto Analítico

O Ofício 098/2026-SLE da B3 e a resposta padrão da administradora não mudam a tese estrutural do CARE11 — fundo essencialmente especulativo, sem rendimento há quase cinco anos, com tese dependente de eventos com timing totalmente incerto. O que o episódio acende são dois sinais de alerta: (i) a cota negocia com forte desconto sobre o VP (P/VP ~0,46), desconto que aumentou ao longo de 2026 conforme o papel caiu — o oposto de uma valorização; (ii) o pano de fundo de governança segue frágil, com a transição Trustee → Mérito DTVM marcada por retenção de documentos e atraso das DF auditadas de 2025.

A nota e o veredicto da análise canônica permanecem em 3,0 / VENDA até que (a) apareça fato relevante explicando a oscilação e o volume atípicos, (b) a governança se normalize (DF auditadas de 2025 entregues) e (c) a Cortel sinalize concretamente IPO, venda ou retomada de distribuições. Negociar CARE11 reagindo apenas ao movimento de preço — para qualquer lado — é exatamente o tipo de comportamento que o ofício da B3 tenta inibir.

Onde aprofundar