O que Flávio Bolsonaro propôs sobre o Perse?
A reativação integral do benefício tributário concedido ao setor de eventos e turismo. Em discurso realizado durante o Grande Encontro do Associativismo, em São Paulo, o candidato à presidência Flávio Bolsonaro declarou a intenção formal de restabelecer o Perse (Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos), pacote de desoneração que havia sido cancelado e finalizado durante a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, conforme noticiado pelo InfoMoney.
A sinalização foi dirigida diretamente à base empresarial de serviços, hotelaria, entretenimento e gastronomia reunida no evento. Para esses setores, o benefício representava alíquota zero sobre impostos federais decisivos, como PIS, Cofins, CSLL e IRPJ, reduzindo drasticamente o custo operacional pós-crise sanitária.
Essa divergência marca uma divisão direta de política econômica: enquanto a Fazenda do atual mandato buscou eliminar subsídios para equilibrar o Orçamento da União, a oposição aposta na renúncia tributária como motor de atração do empresariado e estímulo ao emprego.
Por que o encerramento do Perse foi uma batalha no governo Lula?
Porque a perda contínua de arrecadação ameaçava as metas do arcabouço fiscal. Criado originalmente durante a pandemia para salvar empresas que foram forçadas a fechar as portas, o Perse previa uma vigência temporária com renúncia estimada em bilhões de reais. Conforme a economia reabriu e os setores registraram recuperação de faturamento, a equipe econômica do governo federal passou a apontar o programa como uma fonte insustentável de sangria na receita tributária.
A equipe do Ministério da Fazenda argumentava que a prorrogação contínua criava distorções setoriais injustas contra outros segmentos da economia que pagavam carga tributária cheia, além de abrir brechas para planejamento tributário excessivo. Por outro lado, as entidades empresariais sustentavam que a retirada abrupta comprometeria margens financeiras e projetos de expansão contratados sob a premissa de continuidade do incentivo fiscal.
Atenção ao custo da renúncia: Qualquer proposta de volta de benefício tributário precisa indicar compensação orçamentária ou alterar tetos fiscais. Sem fonte clara de receita alternativa, o mercado precifica aumento do endividamento público soberano.
Ao prometer o retorno do programa, Flávio Bolsonaro compra o pleito integral dos empresários do setor, mas transfere para o plano macroeconômico a obrigação de responder como o rombo da renúncia seria absorvido sem explodir o déficit público.
Quais empresas da bolsa e setores são diretamente afetados?
Companhias ligadas a turismo, hospedagem, entretenimento e viagens. Na B3, empresas que dependem da dinâmica de fluxo de pessoas e convenções sentiram diretamente tanto a criação quanto a extinção do regime especial. Operadoras de turismo, redes hoteleiras e administradoras de eventos tiveram lucros contábeis vitaminados enquanto a alíquota zero operou.
Com a extinção decretada pelo governo Lula, essas companhias foram forçadas a recalcular margens brutas e recompor provisões de impostos sobre receita e resultado operacional. A perspectiva de uma volta do Perse altera novamente a base de cálculo dessas empresas:
Empresas de turismo, feiras e hotelaria voltam a pagar alíquota zero nos tributos federais elegíveis, gerando alívio de caixa imediato.
O setor segue tributado sob o regime normal e o mercado cobra a conta do estresse fiscal gerado pelo debate eleitoral.
A reação do mercado a anúncios desse tipo é sempre assimétrica: há ganho microeconômico circunscrito para meia dúzia de empresas listadas, mas um custo macroeconômico espalhado sobre o restante da bolsa via aumento das taxas de juros de longo prazo.
O que pesa a favor e o que preocupa os investidores?
O embate real acontece entre o lucro privado de um setor e a solidez fiscal do país. De um lado, entidades representativas do comércio e do associativismo defendem que o benefício fomenta contratações e preserva o fôlego de pequenas e médias redes operacionais. Do outro, analistas de contas públicas apontam o risco de desorganização orçamentária.
- Estímulo operacional: A redução de PIS, Cofins e CSLL alivia despesas de empresas intensivas em mão de obra e eventos presenciais.
- Segurança para investimentos: Setores que dependem de contratos de longo prazo em convenções teriam previsibilidade tributária favorável.
- Piora do déficit primário: A renúncia de receitas federais reduz a capacidade da União de entregar superávits ou conter a dívida bruta.
- Pressão na curva de juros: Mais desoneração sem corte compensatório de gastos eleva o prêmio de risco dos títulos NTN-B e das taxas DI.
É essa equação que faz o investidor experiente não comemorar qualquer isenção fiscal sem antes avaliar a fatura que o Tesouro Nacional repassa para o resto do mercado.
Como o investidor pessoa física deve posicionar a carteira?
Sem tomar decisões precipitadas baseadas exclusivamente em promessas de campanha. O calendário eleitoral de 2026 traz volatilidade e declarações direcionadas a plateias específicas. Transformar uma fala pública em lei exige aprovação de projeto no Congresso Nacional, cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal e negociação de compensações orçamentárias.
Não compre ações do setor de turismo ou eventos contando com o retorno imediato da isenção. O Perse não voltará da noite para o dia. Avalie as empresas pelo lucro operacional real e pelo caixa atual, sem depender de subsídios de Brasília. Paralelamente, monitore os títulos de renda fixa: promessas fiscais frouxas mantêm os juros reais longos elevados, oferecendo taxas atrativas no Tesouro IPCA+.
O melhor filtro para o investidor pessoa física é sempre o mesmo: separar ruído de plataforma política de fatos contábeis concretos. Até que um texto legislativo exista e tramite com apoio da maioria no parlamento, o regime tributário vigente continua valendo com alíquota plena.