O Eurostat, a agência de estatísticas da União Europeia, informou nesta quarta-feira (4) que a inflação anual dos 21 países da zona do euro subiu para 4,0% em outubro, ante 3,8% em setembro — o maior nível em três anos. O número veio como os economistas esperavam, mas reforça a aposta, relatada pela Reuters, de um novo aumento de juros do Banco Central Europeu (BCE) em dezembro, e isso alimenta a ideia de juros altos no mundo por mais tempo.
O que o Eurostat divulgou sobre a inflação na zona do euro?
Que a inflação anual acelerou 0,2 ponto percentual em um mês, exatamente o que a pesquisa da Reuters com economistas previa. Ela está 2 pontos acima da meta de 2% do BCE e no maior nível em três anos.
Como o resultado veio em linha, o dado em si não pegou ninguém de surpresa. A notícia está no que a Reuters diz que vem a seguir: a inflação deve subir ainda mais nos próximos meses. É esse recado, mais que o número de outubro, que empurra o mercado a esperar novo aperto monetário.
Resta saber o que está empurrando os preços. A resposta mostra por que o BCE está preocupado.
A inflação vem da energia ou dos alimentos?
Principalmente da energia. Segundo os dados do Eurostat, a inflação do setor de energia atingiu 20%, e o Money Times acrescenta que os alimentos também ficaram mais caros. A Reuters atribui o movimento à guerra dos Estados Unidos contra o Irã, que elevou os custos de energia e se repassou ao varejo de um bloco que importa a maior parte da energia que consome.
Esse último ponto explica a vulnerabilidade da Europa. Quem produz pouca energia compra o choque de preços já pronto, e o aumento chega ao bolso do consumidor sem filtro. A comparação abaixo mostra o tamanho da distância entre cada medida:
A energia, sozinha, está dez vezes acima da meta do BCE. Já o núcleo, que tira os preços voláteis de alimentos e energia, está bem mais perto dela. Esse contraste leva à próxima pergunta, a que mais importa para o banco central.
O núcleo parado em 2,5% é boa notícia?
Em parte. Segundo a Reuters, o núcleo da inflação permaneceu em 2,5%, em linha com as expectativas. Ele só está meio ponto acima da meta, o que indica que a alta de preços ainda não se espalhou pela economia inteira.
É isso que os economistas chamam de efeitos de segunda ordem: a energia cara vira reajuste de salários, de serviços e de contratos, e a inflação deixa de ser um choque pontual e passa a se autoalimentar. O Money Times registra que esses efeitos, tão temidos, ainda não se concretizaram.
Mas o BCE não parece disposto a esperar para conferir. O medo, nas palavras de Nicola Nobile, da Oxford Economics, é de que o choque dure demais:
“Apesar da ausência de sinais de efeitos de segunda ordem, os dados de inflação divulgados hoje reforçam os argumentos já sólidos a favor de um aumento da taxa de juros pelo BCE em dezembro.”Nicola Nobile, Oxford Economics, citada pelo Money Times
Ou seja, o banco central tende a agir antes que o núcleo se mexa, porque depois que ele sobe é bem mais difícil trazê-lo de volta.
O BCE vai subir os juros em dezembro?
Nada está decidido, mas o mercado e os analistas já tratam como provável. O Money Times chega a dizer que um novo aumento "parece quase certo". Para sustentar essa leitura, há o histórico: o BCE já elevou os juros duas vezes este ano para evitar que as expectativas de preços subam na mesma proporção, e na semana passada manteve a taxa onde estava.
Vale uma ressalva: as fontes não informam o nível atual da taxa nem o tamanho do aumento esperado, então qualquer número sobre isso seria chute. O que se sabe é a direção e a pressão: com a inflação acima da meta e a energia ainda cara, o argumento para subir é mais forte do que era há um mês.
E para quem investe no Brasil, o que essa conversa de Frankfurt tem a ver com o seu dinheiro?
O que isso muda para quem investe no Brasil?
Nada de imediato na Selic nem no IPCA: as fontes não ligam o dado europeu à inflação brasileira. O efeito é indireto e passa pelos juros globais. A leitura do Mercado Hoje é que a pressão inflacionária externa reforça o cenário de juros elevados por mais tempo no mundo, e esse quadro não vem só da Europa. Mostramos como o Fed já discute esse risco na ata que expôs a divisão interna do banco central americano, e o Banco do Japão também deixou uma alta em dezembro no radar.
Quando os grandes bancos centrais mantêm ou elevam os juros, o dinheiro fica mais caro em todo lugar e os ativos de risco costumam sofrer mais, principalmente em mercados emergentes. É raciocínio de contexto, não previsão das fontes. Na rodada de hoje, o contrato futuro do S&P 500 subia 0,91%, a 7.666,25 pontos, sinal de que a bolsa americana não tratou o dado como choque. Foi um número esperado.
A energia é a outra ponte. O petróleo é global, e foi o canal pelo qual a guerra mexeu nos preços; já vimos o efeito dele sobre Wall Street e os balanços na análise da trava no mercado americano. Quem quer medir o que a inflação faz com o rendimento da própria carteira pode usar a calculadora de inflação real contra o IPCA.
Se você tem renda fixa atrelada ao IPCA ou à Selic, nada muda hoje por causa deste dado. Se tem ações ou fundos que dependem de juros mais baixos para valorizar, o recado é de cautela: o "juro alto por mais tempo" lá fora é um vento contrário que pode durar. Não é motivo para vender nada hoje, mas para saber que o cenário externo não vai ajudar tão cedo.
O que acompanhar daqui até dezembro?
O BCE vai olhar os mesmos três sinais que mostramos acima, e você também pode acompanhá-los:
O núcleo da inflação — hoje em 2,5%; se subir, é o sinal de que a energia está vazando para salários e serviços, e o argumento para novo aumento fica ainda mais forte.
A inflação de energia — hoje em 20%; só um recuo consistente aliviaria o BCE, e isso depende do rumo da guerra EUA–Irã.
A decisão de dezembro — a Reuters diz que o mercado espera novo aumento; as fontes não trazem a data exata da reunião, então vale conferir no calendário do BCE.