A ação ITUB4 não está caindo hoje: às 10h18 desta quarta-feira (4), subia 2,78%, a R$ 39,58, depois de o Itaú reportar lucro recorrente de R$ 12,6 bilhões no terceiro trimestre. O que pesa sobre o papel é outra coisa: o CEO Milton Maluhy Filho disse que o banco "não é imune" a um 2027 de juros altos e crédito mais difícil.
Por que a ação ITUB4 está caindo? Hoje, na verdade, ela sobe
Quem digita essa pergunta provavelmente viu o papel recuar nos últimos dias. Nossa análise de ontem sobre a queda da ação ligou o recuo às eleições e à espera pelo balanço do 3T26. As fontes de hoje não trazem um motivo novo para a baixa. O que elas trazem é a reação ao resultado, que foi positiva.
O desconforto que sobra no ar vem da coletiva, não da tela de cotação. Um banco que apresenta número sólido e, no mesmo dia, avisa que o ano seguinte será mais difícil obriga o investidor a separar duas coisas: o que o Itaú entregou e o que o Itaú teme.
O que o CEO do Itaú disse sobre 2027?
“Não somos imunes, nunca fomos imunes.”Milton Maluhy Filho, CEO do Itaú Unibanco, em coletiva sobre o 3T26 (Money Times)
Segundo o Money Times, Maluhy afirmou que o Itaú está mais preparado para um ciclo adverso, mas não escondeu o desconforto. Ele listou três pressões: juros elevados por mais tempo, menor crescimento e possível aumento do desemprego. Chamou atenção para a combinação de famílias com maior comprometimento de renda e empresas que terão de refinanciar dívidas a custos mais altos. Na avaliação dele, isso pode atingir tanto a demanda por empréstimos quanto a capacidade de pagamento dos clientes.
O CEO ainda lembrou que "os economistas estão todos revisando suas projeções de PIB para o ano que vem". A resposta do banco, nas palavras dele, é seguir crescendo com disciplina: priorizar clientes considerados mais resilientes e modalidades com mais garantias, numa política construída há vários trimestres para evitar expansão acelerada nos momentos favoráveis.
O balanço do 3T26 sustenta essa cautela ou a contradiz?
Os números dão razão aos dois lados. Segundo o InfoMoney, o resultado ficou próximo ou ligeiramente acima do consenso dos analistas:
Alta de cerca de 2% sobre o trimestre anterior e de 6% a 13% sobre um ano antes, conforme a metodologia dos analistas.
Retorno sobre o patrimônio do trimestre.
Crescimento em 12 meses, puxado por imobiliário, consignado e PMEs com garantia do governo.
Repare no último card: a carteira cresceu justamente nas linhas que o CEO descreveu como prioritárias, as de maior garantia. A cautela não é só discurso, já aparece na composição do crédito.
A inadimplência é onde o balanço tem a nuance. O atraso acima de 90 dias subiu de 1,9% para 2,0%, movimento atribuído à normalização da carteira de pequenas e médias empresas após o fim de carências em programas do governo. Já o atraso entre 15 e 90 dias caiu de 1,8% para 1,7%. Esse segundo indicador é o que costuma antecipar o que vem pela frente, e ele melhorou. Ou seja: o balanço de hoje não mostra a piora que o CEO teme. Ele mostra um banco se preparando para ela.
Se o resultado é bom e o aviso é sério, por que a ação sobe?
Segundo o InfoMoney, o balanço reforçou a percepção de que o Itaú é a instituição mais bem posicionada para atravessar um ambiente de crédito desafiador, e o dia também teve mais ânimo no mercado como um todo. Em outras palavras, a cautela do maior banco privado do país foi lida como prova de gestão de risco, não como alarme. Isso importa para o setor: se o líder diz que o ciclo vai apertar, os demais bancos enfrentam o mesmo cenário com menos folga.
- Lucro e ROE em linha ou acima do consenso, com a inadimplência mais curta (15 a 90 dias) em queda.
- Carteira crescendo em linhas com garantia, o que protege em caso de piora do emprego.
- O CEO fala em famílias já comprometidas e empresas refinanciando a juros maiores: o risco existe, só não apareceu no balanço ainda.
- A inadimplência acima de 90 dias subiu, ainda que o banco atribua isso a um fim de carência nas PMEs.
E o Itaú vai fechar a torneira do crédito? Pelas falas, não: a carteira cresceu e o plano é crescer com seletividade. O que muda é quem recebe e com que garantia. E os proventos? As fontes de hoje não trazem novidade sobre dividendos; as regras do novo JCP estão em nossa matéria sobre a data-base do JCP.
Nada no balanço de hoje pede pressa para vender. A queda dos últimos dias veio antes do resultado, e o resultado foi bom. A cautela do CEO é um aviso sobre 2027, não um fato de 2026: ela muda o que você deve vigiar, não necessariamente o que deve fazer hoje. Se a sua tese depende de um ciclo de crédito tranquilo, ela acabou de ser avisada pelo próprio líder do setor.
O que acompanhar daqui para frente?
O CEO deu o roteiro do risco, e o balanço dá a régua. Vale cruzar com nossa análise das projeções e do custo de capital do Itaú, que olha o mesmo cenário por outro ângulo.
Inadimplência de 15 a 90 dias — está em 1,7%, queda de 1,8%. Se voltar acima de 1,8%, a cautela do CEO começa a aparecer nos números.
Inadimplência acima de 90 dias — está em 2,0%, alta de 1,9%. Se continuar subindo mesmo depois de a normalização das PMEs passar, o argumento do fim de carência perde força.
Ritmo da carteira — cresceu 10,2% em 12 meses. Uma desaceleração mostraria a seletividade do banco, ou menos demanda, que é o outro risco apontado por Maluhy.
Resumo: o CEO do Itaú disse que o banco não é imune a um 2027 mais duro, mas o 3T26 não mostra deterioração: mostra preparo. Quem tem ITUB4 deve acompanhar a inadimplência de 15 a 90 dias como termômetro, não o susto da manchete.