Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, disse em entrevista ao Valor Econômico que a forma como o governo tratar as contas públicas vai definir a relação do partido com Lula no quarto mandato. Para quem investe, é a primeira cobrança organizada de ajuste fiscal vinda de dentro da possível base do governo. E isso acontece justamente quando os juros longos e o dólar estão caros por medo de que esse ajuste não aconteça.
O que Kassab disse sobre o apoio do PSD a Lula?
Segundo a reportagem do Valor, o PSD quer continuar com cargos no governo federal e reconhece que Lula tem legitimidade para entregar os programas sociais prometidos. O preço do apoio, porém, é um compromisso com corte de gastos. O partido terá 43 deputados federais e quatro senadores a partir de fevereiro de 2027.
A entrevista trouxe uma proposta que vai além da cobrança. Kassab chamou de "inaceitável" o modelo atual das emendas parlamentares e defendeu que todo esse dinheiro passe a financiar programas do Executivo. Pela reportagem, os cerca de R$ 60 bilhões que os parlamentares vão direcionar no ano que vem ficariam ligados ao projeto que venceu nas urnas. Sobre o comando da Câmara, ele disse que os deputados do partido já fecharam apoio à recondução de Hugo Motta (Republicanos-PB). Os senadores do PSD devem decidir nos próximos dias.
A cobrança fiscal em si não é nova. Em 31 de outubro, em entrevista ao O Globo, Kassab já tinha dito que medidas de equilíbrio fiscal poderiam render uma "relação mais profunda" com o governo, segundo o Poder360. No dia seguinte, no programa Canal Livre, da Band, ele pediu que Lula encontrasse uma dupla econômica nos moldes de Palocci e Meirelles e fizesse o ajuste sem subir impostos. O que muda agora é o tom. A cobrança deixou de ser conselho e passou a ser a condição que vai medir a relação, com uma proposta concreta sobre emendas. Por que isso interessa a quem tem dinheiro investido? Porque o mercado já cobrou caro a dúvida fiscal.
Por que o mercado presta atenção no PSD agora?
No primeiro pregão depois do segundo turno, o mercado precificou de uma vez o risco fiscal de um novo mandato de Lula. A reação foi a maior desde a mudança do regime cambial em 1999:
Os juros futuros sofreram até mais que o câmbio. Segundo a BBC, os contratos com vencimento em 2031 subiram quase 3 pontos percentuais naquele dia. Na quarta-feira (4), o Copom manteve a Selic em 13,75% e interrompeu uma sequência de cinco cortes de 0,25 ponto que vinha desde março, quando a taxa estava em 15%. O Boletim Focus de 3 de novembro elevou a Selic esperada para o fim de 2027 de 11,75% para 12,50%. Em resumo, o mercado passou a cobrar um prêmio por não saber se haverá ajuste. E esse prêmio só diminui se aparecer um sinal crível de que o ajuste vai acontecer.
É aí que entra o tamanho do PSD. Pela nossa conta, 43 cadeiras são cerca de 8,4% da Câmara (43 de 513). O peso real aparece quando se olha o número de votos que cada tipo de projeto exige. Um projeto de lei comum precisa de 257 votos, e o PSD sozinho cobre perto de 17% disso. Uma emenda à Constituição precisa de 308 votos, e aí o partido entrega uns 14%. Nenhum pacote fiscal relevante passa sem a quarta maior bancada da Casa. Mas o que exatamente Kassab está pedindo, e o que a fala dele não resolve?
O que Kassab pede e o que a fala não garante
- Corte de despesas como condição explícita do apoio, partindo de um partido que quer continuar no governo, e não da oposição.
- Ajuste sem aumento de carga tributária, como defendeu no Canal Livre, o que reduz o risco de a conta sair só pelo lado da receita.
- Atrelar as emendas a programas do Executivo, o que dá ao governo mais controle sobre uma fatia grande do Orçamento.
- Nenhum número: a entrevista não diz quanto teria de ser cortado, nem em quais despesas, nem em quanto tempo.
- A mudança nas emendas depende do próprio Congresso, que hoje se beneficia do modelo que Kassab critica.
- Quem decide a política econômica ainda não foi definido: o mercado espera o nome da Fazenda para o novo mandato.
Para ter ideia do tamanho das emendas: os R$ 60 bilhões citados na reportagem passam do custo de quase R$ 50 bilhões que um reajuste de R$ 120 no salário mínimo teria, como mostramos ao explicar por que um aumento do mínimo pesa tanto no Orçamento. Vincular esse dinheiro a programas do Executivo não corta um real por si só. Mas tira do Orçamento uma parte que hoje é decidida fora do governo, e isso facilita planejar um ajuste.
O ponto de partida já é apertado. As contas do governo central fecharam agosto com déficit primário de R$ 13,585 bilhões, e a campanha trouxe sinais na direção oposta à que Kassab cobra, como a sinalização de que benefícios sociais ficariam fora dos cortes. Há ainda um detalhe na fala de Kassab: ele aceita que os programas sociais sejam entregues. Então o corte teria de vir de subsídios, privilégios e outras despesas, onde a resistência política costuma ser grande. Daqui para frente, a questão é o que acontece com seus investimentos em cada desfecho.
O que isso muda para renda fixa, FIIs e dólar?
A fala, sozinha, não mexe nos preços de forma duradoura. O que ela faz é aumentar a chance de o governo precisar mostrar um ajuste para ter maioria. A melhor régua para medir isso é a Selic esperada para 2027, que já embute o medo fiscal. Os três caminhos abaixo partem do Focus antes e depois da eleição. O terceiro, de juros voltando a subir, é um cenário nosso, baseado no relatório do Citi citado pela CNN, que aponta que o mercado já precifica um possível ciclo de alta.
O governo anuncia uma equipe econômica com autonomia e cortes concretos, aprovados com o PSD e o centro. O prêmio da eleição perde força e o Focus volta ao nível de antes do segundo turno.
Apoio negociado com cargos e cortes vagos. O Focus atual fica parado e os juros longos seguem altos.
O PSD se afasta, o pacote não sai e o Copom troca a pausa por alta de juros.
Na renda fixa, quem já tinha Tesouro IPCA+ ou prefixado longo viu o preço do título cair com a disparada dos juros futuros. Quem compra agora trava taxas mais altas e ganha se o primeiro cenário se confirmar, porque a queda dos juros valoriza o título. O Tesouro Selic segue rendendo 13,75% ao ano sem esse risco de preço. Nos FIIs de tijolo e nas ações de empresas endividadas, o efeito é o mesmo de sempre: juro longo alto deixa a renda desses ativos menos atraente do que a dos títulos públicos. Por isso um sinal fiscal crível tende a ajudar mais esses ativos que os outros. No dólar, a alta desde a eleição é praticamente toda prêmio de risco doméstico, e é a parte do preço que mais pode recuar se o ajuste vier.
O que acompanhar nas próximas semanas
A fala de Kassab só vira ajuste se for seguida de atos. Estes são os sinais que dizem para qual cenário o país está indo:
O nome da Fazenda: se for alguém com autonomia e trânsito no mercado, como o próprio Kassab pede, é o primeiro sinal do cenário bom. Se o nome demorar a sair, o prêmio de risco continua.
A Selic de 2027 no Focus: qualquer recuo abaixo dos 12,50% atuais mostra que a cobrança está surtindo efeito. Se subir, o mercado está apostando no cenário ruim.
O dólar em relação a R$ 5,40: ficar abaixo do fechamento do dia seguinte à eleição de forma consistente indica alívio. Romper a máxima de R$ 5,60 daquele dia indica que o mercado voltou a ter medo.
A posição dos senadores do PSD e o destino das emendas no Orçamento de 2027: se a vinculação dos R$ 60 bilhões a programas do Executivo for parar no texto do Orçamento, a proposta de Kassab deixou de ser só discurso.
Também vale ficar de olho em medidas que vão na direção contrária, como o pacote de R$ 7 bilhões para combustíveis que já pesou no resultado primário. Até o fim do ano, gasto novo sem compensação é o tipo de notícia que trava os juros longos onde estão, com ou sem a cobrança do PSD.
Resumo: Kassab transformou o corte de gastos na condição que vai medir o apoio do PSD a Lula e levou uma proposta concreta para as emendas. É uma notícia boa para quem espera alívio nos juros, mas por enquanto ainda é só intenção. Os preços só devem reagir de forma duradoura quando aparecerem o nome da Fazenda e cortes com valor definido.