IFI alerta que promessas eleitorais de Lula podem ampliar o desequilíbrio fiscal em até R$ 40 bilhões — o que muda para dólar e bolsa Relevância4,0
INTERMEDIÁRIO PTENES

O que a IFI disse sobre as promessas eleitorais de Lula

Relatório aponta reajuste do Bolsa Família, fim das bets e pacote para MEIs sem previsão no Orçamento e pressiona mercado.

A Instituição Fiscal Independente (IFI) calculou que três promessas da campanha — Bolsa Família, fim das bets e MEIs — podem abrir um buraco de até R$ 40 bilhões nas contas públicas. O mercado já mostra o incômodo: dólar em alta, juros futuros subindo e Ibovespa em queda.

O que a IFI disse sobre as promessas eleitorais de Lula?

No Relatório de Acompanhamento Fiscal, divulgado nesta quinta-feira (29), a IFI, instituição vinculada ao Senado, somou três frentes: o reajuste do Bolsa Família, a perda de arrecadação com o fim das bets e o pacote para microempreendedores individuais (MEIs). Nenhuma das três tem previsão no Orçamento. Para a instituição, elas se empilham sobre um cenário que já exigia medidas para conter o avanço da dívida pública, e por isso o relatório fala em necessidade de ajuste fiscal no próximo mandato.

A conta tem fronteiras, e vale saber onde elas estão:

  • Dentro da estimativa: reajuste do Bolsa Família, perda de arrecadação com o fim das bets e pacote para MEIs.
  • Fora da estimativa: Pé-de-Meia para estudantes do ensino superior e gratuidade do transporte coletivo nos fins de semana, também mencionados na campanha.

Ou seja, o número já é um piso parcial do que as promessas poderiam custar. Ao mesmo tempo, a própria IFI ressalva que o impacto depende da implementação e do desenho das medidas: promessa de campanha não vira gasto automaticamente. E o problema não é de um lado só. Segundo o relatório, as duas candidaturas apresentaram, no segundo turno, propostas que aumentariam gastos ou reduziriam receitas, como estímulos aos MEIs, ampliação de benefícios sociais e programas de renegociação de dívidas. O tom do debate entre promessas e orçamento já aparecia na nossa cobertura do embate presidencial e seus efeitos na B3.

“Se estivéssemos em um cenário de abundância de recursos e folga orçamentária, não haveria problema”Relatório de Acompanhamento Fiscal da IFI, divulgado em 29/10

A frase resume o raciocínio: o problema não é o programa em si, é o caixa. E isso leva à pergunta seguinte: quanto esse valor pesa de verdade?

Quanto pesa essa conta, e o que mudaria sem as promessas?

As fontes a que tivemos acesso não comparam o valor com o PIB, com a meta fiscal nem com o déficit do ano, e não dizem quanto cada medida responde sozinha. Não vamos inventar essa proporção. O que dá para afirmar com segurança é a conta simples: sem as três medidas, o desequilíbrio seria menor exatamente por essa diferença, e o ajuste que a IFI já pedia seria o do cenário anterior, não o do cenário com promessas.

O relatório também não espera guinada. Com a reeleição de Lula, a IFI não prevê mudanças bruscas na condução da política econômica; na área fiscal, a avaliação é que deve prevalecer a estratégia de ajuste gradual. É a combinação que preocupa: uma conta que cresce e um ajuste que anda devagar. Quem empresta ao governo, em reais ou em dólares, passa a exigir mais retorno para carregar esse risco.

Por que o dólar subiu e a bolsa caiu?

O dólar subiu para R$ 5,42 (+1,36%) nesta quinta, depois do alerta da IFI. Para dimensionar o salto, basta olhar o fechamento de ontem:

Fechamento de 28/10R$ 5,340dólar comercial, -0,19% no dia
→
Hoje, 29/10R$ 5,42+1,36% na rodada

O quadro vem de antes do relatório. Segundo o InfoMoney, o Ibovespa caiu 2,68% na quarta-feira (28), aos 171.006,10 pontos, na terceira baixa consecutiva depois das eleições, e os juros futuros (DIs) subiram em toda a curva. Estrangeiros retiraram R$ 2,8 bilhões da bolsa no dia seguinte ao segundo turno, num movimento que, segundo a reportagem, ainda não cessou. O governo reeleito, por sua vez, tem priorizado urgências parlamentares, o que a reportagem lê como foco em governabilidade, e não em sinalização fiscal.

Foi esse vazio que Lucas Xavier, head da mesa de renda variável e sócio da AW Capital, apontou na mesma matéria: nenhum cenário positivo para a situação fiscal foi divulgado até agora, e o mercado começa a questionar se ainda haverá cortes de juros, possibilidade que ele descreve como cada vez mais remota. A lógica é encadeada: mais gasto sem cobertura exige mais dívida, mais dívida pede juro mais alto, e juro mais alto afasta quem investe em bolsa. O pano de fundo externo não ajudou: o Federal Reserve manteve os juros entre 3,75% e 4,00%, Wall Street fechou no campo positivo e o petróleo voltou a superar US$ 100, sem aliviar a aversão ao risco aqui. Para acompanhar o câmbio ao longo do dia, vale usar a página do dólar com cotação e valor justo.

VALE3 e Petrobras: o que olhar nas ações hoje?

O InfoMoney lembra que o mini-índice (WINZ26) fechou ontem em queda de 2,84%, aos 173.300 pontos, e que o foco dos operadores hoje está na prévia do PIB e no PCE dos Estados Unidos, além dos resultados fiscais do governo brasileiro. Duas ações pesam no contrato: a ação VALE3, que divulga balanço após o pregão de hoje, e a Petrobras (PETR3 e PETR4). O comportamento delas indicará se a pressão vendedora continua ou se a bolsa encontra espaço para estabilizar.

Para a Vale, o balanço chega no mesmo dia em que o câmbio se mexe; já tratamos dessas duas variáveis juntas na nossa leitura do alerta fiscal da IFI e do balanço da Vale. Na Petrobras, dólar e preço de combustível já vinham no centro da discussão, como mostramos na análise do que pesava sobre a PETR4.

O que isso muda para a sua carteira

Nada obriga a vender hoje: a IFI estimou um risco, não anunciou um gasto aprovado. Mas o relatório reforça o que o mercado já precifica, que é um prêmio de risco maior para ativos brasileiros. Quem tem ações deve esperar mais oscilação enquanto não houver sinal fiscal concreto. Quem tem renda fixa prefixada ou atrelada à inflação pode ver a marcação a mercado balançar com os juros futuros, e vale conferir o prazo do título antes de decidir mexer.

O que acompanhar a partir de agora?

1

Sinal fiscal do governo — o mercado diz que nenhum cenário positivo foi divulgado; qualquer medida concreta de ajuste muda o humor.

2

Dólar — de R$ 5,340 no fechamento de ontem para R$ 5,42 hoje; é a distância que mede o quanto o alerta foi absorvido.

3

Fluxo estrangeiro — a saída de R$ 2,8 bilhões é o termômetro; se continuar, a pressão sobre a bolsa também.

4

Ibovespa — fechou em 171.006,10 pontos após três quedas seguidas; a pergunta é se hoje vem a quarta.

5

Balanço da Vale e dados dos EUA — o balanço sai depois do pregão; prévia do PIB e PCE americanos ditam o ritmo lá fora.

Resumindo o que a IFI disse: três promessas, até R$ 40 bilhões a mais de desequilíbrio, nenhuma delas no Orçamento, e a recomendação de que o próximo mandato inclua ajuste fiscal. A bolsa e o câmbio já cobram uma resposta do governo.