Ueno Bank colapsou no Paraguai — a fraude de US$ 74 mi, as prisões e o presidente que renunciou Relevância10,0
INTERMEDIÁRIO PTENES

O que aconteceu com o Ueno Bank

Banco Central fechou a instituição após descobrir fraude de US$ 74 milhões e queda na solvência

O Banco Central do Paraguai fechou o Ueno Bank na madrugada de 3 de novembro de 2026 depois que a Superintendência de Bancos concluiu que o índice de solvência havia caído para menos da metade do mínimo legal. O resultado imediato: 2,9 milhões de clientes bloqueados, oito executivos presos, a Fitch cortando o rating do banco de BB para D (default) e o presidente da república renunciando antes de ser impedido pelo congresso.

O que aconteceu com o Ueno Bank?

O Ueno Bank, maior banco digital do Paraguai com US$ 4,2 bilhões em ativos, foi fechado pelo Banco Central do Paraguai (BCP) na madrugada de 3 de novembro depois que sua solvência caiu para menos de 50% do mínimo exigido por lei, bloqueando quase 40% da população do país. O anúncio chegou às 3h24 nas redes sociais do banco central — sinal de que a deterioração foi acelerada. O que veio a público nas horas seguintes foi a reconstituição de um esquema contábil que a Superintendência havia começado a apurar meses antes.

5 jun/2026BCP notifica o Ueno sobre operações que ultrapassam os limites de crédito a empresas do mesmo grupo econômico
15 jun/2026Operação fraudulenta é executada: US$ 76 mi são canalizados via empresas intermediárias para a Vinanzas S.A. (mesmo grupo) "comprar" a carteira inadimplente do banco
3 nov/2026BCP decreta intervenção às 3h24; 2,9 milhões de clientes perdem acesso a contas; Fitch corta o rating do banco de BB para D
4 nov/20268 executivos presos preventivamente; presidente Peña indica Raúl Vera Bogado ao comando do BCP e anuncia primeiros pagamentos ainda naquela semana
5 nov/2026Santiago Peña renuncia às 13h30 antes que a Câmara vote pelo impeachment; Ministério Público abre três investigações criminais
6 nov/2026BCP inicia a devolução para clientes com saldo até 10 milhões de guaranis, sem dívida com o banco e com conta em outra instituição

O rombo: três números para entender a insolvência

Ativos totais US$ 4,2 bi

Captava quase 9% dos depósitos do sistema financeiro paraguaio — grande demais para fechar sem crise

Créditos podres escondidos US$ 74,4 mi

Valor da carteira inadimplente que o banco fingiu ter vendido para limpar o balanço em junho

Clientes bloqueados 2,9 milhões

Mais de um terço da população do país; inclui fundos públicos e investimentos de brasileiros

O tamanho do banco é parte do problema. Quando uma instituição concentra quase 9% dos depósitos de um país, qualquer intervenção tem consequências políticas imediatas — e o BCP sabia disso. Mesmo assim, quando os ajustes nos demonstrativos revelaram que a solvência havia caído abaixo do piso legal, a intervenção se tornou inevitável.

Como o banco simulou a venda de créditos podres para limpar o balanço

Em 5 de junho, o BCP comunicou formalmente ao Ueno que suas operações com empresas do mesmo grupo econômico estavam acima do limite regulatório. Dez dias depois, o banco executou uma operação para tentar contornar a notificação — e foi justamente essa operação que a Superintendência de Bancos reconstruiu e expôs com base em documentação do jornal paraguaio Hoy.

US$ 76 mi emprestados à Vinanzas S.A. via terceiros (HD Invest + Satec) + Vinanzas usa o dinheiro para "comprar" a carteira inadimplente do Ueno = Créditos podres somem do balanço — mas o dinheiro nunca saiu do Grupo Vázquez

A reconstrução mostra que os US$ 76,06 milhões percorreram uma cadeia de empresas intermediárias — incluindo um empréstimo de US$ 35 milhões para a HD Invest E.A.S. e outro de US$ 20 milhões para a Satec — antes de chegar à Vinanzas. Essa empresa faz parte do mesmo Grupo Vázquez que controla o Ueno. No papel, o banco saneou o balanço. Na prática, o risco permaneceu dentro do grupo, apenas redistribuído entre empresas relacionadas.

O Ueno havia emprestado US$ 146 milhões no total a empresas do Grupo Vázquez, ultrapassando os limites de crédito a partes relacionadas. A Superintendência identificou ainda que despesas operacionais eram contabilizadas como ativos. Somados, esses ajustes foram suficientes para derrubar a solvência abaixo do piso legal e tornar a intervenção inevitável. Um detalhe que chama atenção: na véspera do fechamento, o banco lançou uma promoção de 50% de cashback para clientes que transferissem novos recursos e mantivessem o saldo até 7 de novembro — uma captação emergencial às vésperas de uma intervenção que estava sendo preparada.

Por que o escândalo bancário derrubou o presidente do Paraguai

Santiago Peña chegou ao poder em 2023 com perfil tecnocrático — economista, ex-FMI, promotor de investimento estrangeiro. O vínculo com o Ueno esteve presente durante todo o governo: Peña foi sócio da instituição até março de 2025, e durante seu mandato o banco recebeu depósitos volumosos de entidades públicas. O maior deles: aproximadamente US$ 300 milhões do IPS, o Instituto de Previdência Social que administra as pensões da maioria dos trabalhadores paraguaios. No total, US$ 800 milhões de fundos públicos estavam depositados no banco — o que transformou uma crise de crédito numa crise de Estado. O debate sobre independência e rigor dos bancos centrais não é tema exclusivo ao Paraguai; no Brasil, a questão voltou à tona esta semana com as declarações de Dario Durigan sobre o Banco Central.

Quando o BCP interveio, 35 deputados formalizaram pedido de impeachment imputando a Peña "mau desempenho de suas funções" — com acusações de conflito de interesses, suposto desvio de recursos previdenciários e proteção institucional ao banco durante os meses anteriores. Às 10h de quinta-feira (5), a Câmara iniciou o processo. Às 13h30, Peña renunciou. O Ministério Público abriu três investigações criminais. O presidente do próprio BCP havia renunciado no mesmo dia da intervenção (3/11); Peña indicou o economista Raúl Vera Bogado — que dirigiu o BCP entre 2001 e 2002, período em que gerenciou a intervenção do Banco Alemán — para substituí-lo, mas a nomeação depende de aprovação do Senado. O processo de impeachment continua mesmo após a saída voluntária, pois a tese que prevaleceu no congresso é que a apuração deve seguir independentemente da renúncia.

O que acontece com o dinheiro dos clientes

O BCP iniciou a devolução dos valores em 6 de novembro, seguindo uma ordem de prioridade. A primeira fase atende clientes com saldo de até 10 milhões de guaranis (cerca de R$ 8.840), sem dívidas com o Ueno e com conta ativa em outro banco paraguaio. Para quem se enquadra nessa condição, a restituição já está em andamento. Assim como ocorreu na liquidação da MW Pay no Brasil em novembro de 2026, ter uma conta alternativa é condição para receber primeiro.

Depósito até 228 mi de guaranis (~US$ 37.400) Coberto pela garantia

Protegido pelo fundo governamental com prazo legal de 15 dias; fase 1 iniciou em 6/11 para saldos até 10 mi de guaranis com outra conta ativa

Acima do limite garantido Recuperação parcial

Sem cronograma definido; Fitch classifica a dívida sênior com Recovery Rating RR6 — perspectiva de recuperação ruim, dependente da liquidação dos ativos

Depósito em dólar Recebe em guaranis

A restituição será feita na moeda local paraguaia à taxa do BCP — sem garantia de manutenção do valor em dólar no resgate

Um ponto que ainda preocupa os analistas é a situação dos fundos públicos: os US$ 800 milhões depositados por entidades do Estado — incluindo os recursos do IPS — não entram no mecanismo de garantia aplicado a depositantes comuns. Sua recuperação depende da liquidação ordenada dos ativos do banco e das decisões judiciais sobre hierarquia de credores, processo que pode levar meses. Para brasileiros com dinheiro no Ueno, o BCP confirmou que a nacionalidade não é critério de exclusão da garantia. Quem não tem conta em outro banco paraguaio será atendido numa fase posterior. Economistas recomendam guardar todos os extratos e comprovantes e acompanhar o canal oficial do BCP. O Banco Central do Brasil, que nos últimos meses avançou em novas regras para limitar crédito sem garantia, não tem jurisdição sobre o caso paraguaio, mas o episódio levanta questões relevantes para quem diversifica entre fronteiras.

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Verificar enquadramento na garantia: saldo até 228 milhões de guaranis (~US$ 37.400), sem dívidas com o Ueno e com conta em outro banco paraguaio são as condições para a fase 1 — acompanhe o canal oficial do BCP para elegibilidade e cronograma

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Guardar toda a documentação agora: extratos, comprovantes de transferência e histórico de saldo são exigidos no processo de restituição; fazer download enquanto o acesso digital ao banco ainda existe

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Depósito em dólar acima do limite: o Recovery Rating RR6 da Fitch indica perspectiva de recuperação ruim — a linha do tempo depende da liquidação de ativos e de processos judiciais que podem se estender por muitos meses

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Acompanhar a estabilidade institucional: o processo de impeachment contra Peña continua; a nomeação de Vera Bogado para o BCP ainda aguarda aprovação do Senado — incerteza que pode afetar o ritmo das devoluções e a condução da liquidação