Payroll de outubro: EUA criam 165 mil vagas, mais que o dobro do esperado, e o Fed fica perto de subir juros em dezembro Relevância4,0
INTERMEDIÁRIO PTENES

Payroll de outubro: EUA criam 165 mil vagas e o Fed avalia juros

O ganho médio por hora subiu 0,4% no mês e a criação de vagas superou a projeção de Wall Street, pressionando o câmbio e a Selic.

O emprego americano veio forte. Na sexta (6), o Departamento de Estatísticas do Trabalho dos EUA (BLS) informou que a economia do país abriu em outubro mais que o dobro das cerca de 65 mil vagas que os analistas projetavam. Para quem investe no Brasil, o recado é de juro americano mais alto por mais tempo, e isso chega ao dólar e à Selic.

O que o payroll de outubro mostrou?

O relatório mostrou um mercado de trabalho bem mais aquecido do que Wall Street supunha. Além da surpresa de outubro, o BLS revisou agosto de 133 mil para 186 mil vagas e setembro de 29 mil para 60 mil. São 84 mil empregos que não estavam na conta. A taxa de desemprego caiu de 4,2% para 4,1%, contra os 4,2% que o consenso esperava.

Esperado65 milmediana de 24 projeções da FactSet (de 50 mil a 125 mil)
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Veio165 milBLS, dado preliminar de outubro

As casas de pesquisa não concordavam no tamanho da aposta. A pesquisa da Dow Jones citada pela CNBC previa 59 mil vagas, e a Bloomberg e a FactSet, 65 mil. Só que isso pouco importa, porque o número veio acima até da projeção mais otimista da FactSet, de 125 mil. Também ficou muito acima da média de 48 mil vagas por mês dos 12 meses anteriores, segundo o BLS.

As vagas vieram de quatro setores. Serviços profissionais e empresariais abriram 70 mil postos, contra uma média mensal de 15 mil no último ano. Saúde abriu 42 mil, transporte e armazenagem 25 mil e a indústria 19 mil. O setor privado respondeu por 159 mil das vagas. O dado que mais incomoda o banco central americano é o salário: o ganho médio por hora subiu 0,4% no mês e 3,1% em 12 meses, quando o mercado esperava 0,3% e 2,9%.

Um mês sozinho não faz tendência. Os últimos quatro meses, depois das revisões, contam uma história diferente.

Foi um ponto fora da curva ou o emprego voltou a acelerar?

Parece aceleração. Quem acompanhou o payroll fraco de junho e o efeito dele no dólar lembra que o meio do ano sugeria uma economia esfriando. Julho chegou a fechar com saldo negativo de 10 mil vagas, já com as revisões. De agosto a outubro, porém, os EUA abriram 411 mil vagas, uma média de 137 mil por mês. É quase o triplo do ritmo dos 12 meses anteriores (conta nossa: 137 ÷ 48 ≈ 2,9).

200 100 -50 0 -10 186 60 165 jul ago (rev.) set (rev.) out
Vagas criadas por mês, em milhares, segundo o BLS. Depois das revisões, julho é o único mês fraco da sequência.

Nem tudo no relatório é força. A taxa ampla de desemprego (U-6), que soma desalentados e quem trabalha meio período sem querer, subiu de 7,6% para 7,9%. A CNBC também apontou que o tempo médio de desemprego foi a 27,1 semanas, o maior desde setembro de 2021. A leitura é que as empresas contratam, mas quem perde o emprego demora mais para se recolocar. O Fed, porém, olha primeiro para vagas e salários. E foi isso que o mercado precificou em minutos.

Por que emprego forte nos EUA mexe com o seu dinheiro?

Emprego forte mexe com o seu dinheiro porque o Fed está numa fase de aperto e procurava um motivo para continuar. A inflação americana segue acima da meta, pressionada pelo conflito no Oriente Médio. Mary Daly, presidente do Fed de São Francisco, disse que o banco central provavelmente terá de apertar mais. Uma alta de 0,25 ponto em dezembro levaria a taxa americana para a faixa de 4% a 4,25%, o que indica que ela está hoje entre 3,75% e 4%. A reação na sexta foi esta:

IndicadorAntesDepois do payrollQuem mediu
Chance de alta do Fed em dezembro72,8%81%CME FedWatch
Juro do Tesouro americano de 10 anos4,84%4,88%Schwab, manhã de sexta
Juro do Tesouro americano de 2 anosn/d~4,52%Reuters
Dólar contra o realR$ 5,4518+0,36%fechamento de quinta e variação de sexta
Ibovespa166.191 pts168.498 pts (+1,39%)B3

As medições da chance de alta não batem entre si porque cada uma foi feita numa hora diferente. A leitura de fechamento do FedWatch citada pela 24/7 Wall St. foi de 76,8%, e a casa de apostas Polymarket marcava 76,5%. Qualquer uma delas mostra a alta como cenário principal, e a página dos juros dos EUA e da próxima reunião do Fed acompanha essa taxa. A bolsa brasileira não caiu: o Ibovespa subiu no mesmo dia em que a Nasdaq ganhou 1,09%. O efeito mais direto do payroll aparece no câmbio e na Selic.

O que muda para o dólar, a Selic e os seus FIIs?

A primeira coisa que muda é o diferencial de juros, que fica menor. O Copom manteve a Selic em 13,75% na quarta (4), por unanimidade, e interrompeu cinco cortes seguidos de 0,25 ponto que tinham trazido a taxa de 15% até aqui. Pela nossa conta, contra o teto da faixa americana de 4%, o Brasil paga hoje 9,75 pontos a mais. Se o Fed subir, a diferença cai para 9,5 pontos. É pouco no papel, mas vem num real já fragilizado: segundo a Remessa Online, o dólar bateu o maior nível de 2026 depois do segundo turno, como mostramos ao discutir o que esperar do dólar e dos juros após a eleição.

A segunda mudança atinge a Selic. Segundo a Nomad, o Copom tirou do comunicado o trecho sobre o tamanho total do ciclo de cortes, um sinal de que eles podem ter acabado por ora. Um Fed subindo juros reduz o espaço para o Copom voltar a cortar, porque cortar aqui enquanto lá sobe estreitaria ainda mais o diferencial e pressionaria o câmbio e a inflação. Como mostramos na prévia da reunião do Copom, o mercado chegou dividido à decisão. Agora a Fecomércio-RS projeta outra manutenção em dezembro e a volta dos cortes só no primeiro semestre de 2027, a depender do câmbio.

Para o seu dinheiro, isso tem três efeitos. Quem está em Tesouro Selic ou CDB pós-fixado continua rendendo 13,75% por mais tempo. Quem esperava a queda dos juros para valorizar fundos imobiliários de tijolo e ações sensíveis a juros perde um gatilho de curto prazo. Quem tem ETF de títulos longos americanos viu pouca reação: a 24/7 Wall St. notou que o TLT quase não se mexeu, porque o juro curto subiu mais que o longo.

Fed sobe 0,25 ponto4% a 4,25%

É o cenário que o mercado já precifica. O efeito extra no dólar tende a ser menor, mas reforça a Selic parada até 2027.

Fed espera3,75% a 4%

Exigiria inflação americana mais fraca. Seria um alívio para o câmbio e reabriria a conversa sobre cortes no Brasil.

O que vigiar até 9 de dezembro?

O dado de outubro é preliminar e ainda passa por duas revisões, e a decisão do Fed depende dos números que saem antes dela. Há uma coincidência que vale anotar: o Fed e o Copom anunciam suas decisões no mesmo dia.

1

Inflação ao consumidor dos EUA (CPI), em 10/11: um número acima do esperado consolida a alta. A 24/7 Wall St. avalia que uma chance acima de 77% já pressiona as bolsas.

2

Ata da última reunião do Fed, em 18/11: mostra quantos dirigentes defendem altas pequenas e graduais.

3

Payroll de novembro, em 4/12: traz a primeira revisão de outubro. Uma correção para perto da média de 48 mil por mês enfraquece o argumento para subir os juros.

4

Fed e Copom, em 9/12: se o Fed subir e o Copom ficar parado, o diferencial cai para 9,5 pontos. Vale acompanhar se o dólar segura o patamar de R$ 5,45.