Por que priorizar a renda fixa no Brasil? O Seu Dinheiro aposta em juro alto por mais tempo, e o Focus foi junto Relevância4,0
INICIANTE PTENES

Por que priorizar a renda fixa no Brasil com os juros altos por mais tempo

O Banco Central manteve a Selic em 13,75% ao ano e o mercado elevou as projeções até 2028 por causa do déficit do governo.

O Seu Dinheiro recomendou, em vídeo no seu canal, priorizar a renda fixa no Brasil e buscar a renda variável no exterior. O motivo: com o governo gastando mais do que arrecada, os juros devem ficar altos por mais tempo. Na mesma semana, o Banco Central parou de cortar a Selic e o mercado empurrou para cima suas projeções de juros até 2028.

Por que o Seu Dinheiro manda priorizar a renda fixa no Brasil?

Por causa do caixa do governo. Segundo o resumo do vídeo, a recomendação é buscar oportunidades de renda variável fora do país e priorizar a renda fixa aqui, porque um governo deficitário mantém a expectativa de juros elevados por mais tempo. O vídeo também diz que uma possível desvalorização do real não significa que a moeda vá perder todo o seu valor. Voltamos a esse ponto mais abaixo, porque é ele que assusta quem pensa em dolarizar tudo.

A lógica é simples: quando o governo precisa se financiar muito e o mercado duvida do controle de gastos, cobra mais caro para emprestar. Quem empresta, que é quem compra título público ou CDB, recebe esse prêmio. Já a bolsa brasileira sofre duas vezes: o juro alto encarece o crédito das empresas e torna a renda fixa uma concorrente difícil de bater.

A tese não ficou só no discurso. O calendário da semana deu números a ela.

O que mudou desde a eleição que sustenta essa tese?

Três coisas, todas na mesma direção. A primeira foi o Copom: o Comitê de Política Monetária decidiu nesta quarta-feira (4) manter a taxa Selic em 13,75% ao ano, após cinco cortes de 0,25 ponto. Para lembrar a base, os juros ficaram em 15% ao ano por dez meses seguidos, entre junho de 2025 e março de 2026. Segundo a análise da Nomad, o comitê retirou o trecho sobre a magnitude total do ciclo de calibração, o que pode indicar que os cortes chegaram ao fim, ao menos por ora.

A segunda foi o câmbio. O dólar saiu de R$ 4,96 na sexta-feira anterior à votação, segundo a Remessa Online, e nesta sexta (6) encerrou em alta de 0,37%, cotado a R$ 5,51, primeira sessão do ano com fechamento acima de R$ 5,50. No primeiro pregão depois do segundo turno, a moeda teve sua maior alta percentual diária desde janeiro de 1999.

A terceira foi o Tesouro Direto, que é onde o investidor pessoa física sente a tese no bolso. A tabela mostra o vaivém das taxas reais desde o primeiro turno:

Título02/10 (antes do 1º turno)05/10 (depois do 1º turno)26/10 (depois do 2º turno)03/11 (véspera do Copom)
Tesouro IPCA+ 2032IPCA + 7,66%IPCA + 7,01%IPCA + 7,80%IPCA + 8,03%
Tesouro IPCA+ 2050IPCA + 7,06%IPCA + 6,32%IPCA + 7,03%IPCA + 7,44%

Os números vêm do Seu Dinheiro, que registrou que o Tesouro IPCA+ 2032 saiu de uma taxa 7,66% para oferecer 7,01% de juro real depois do primeiro turno; do InfoMoney, para o fechamento de 26/10; e da InvestNews, segundo a qual em 03/11 o Tesouro IPCA+ 2032 foi de IPCA + 7,89% para IPCA + 8,03%. O otimismo do primeiro turno virou do avesso em três semanas. Os vencimentos mais curtos hoje pagam mais do que antes de qualquer voto. Mas uma taxa alta hoje não garante que ela fique alta. É aqui que entra o "por mais tempo".

O juro vai ficar alto por quanto tempo?

Mais tempo do que o mercado achava há duas semanas. O primeiro Boletim Focus depois da eleição, divulgado pelo Banco Central em 03/11, subiu de uma vez a projeção de Selic para os próximos três anos. O gráfico compara essa pesquisa com a da semana anterior:

15% 10% 5% 13,25 13,50 11,75 12,50 10,00 11,00 fim de 2026 fim de 2027 fim de 2028
Barra clara: Focus de 23/10. Barra destacada: Focus de 03/11. Quanto mais longe o ano, maior a revisão para cima. Escala de 0% a 15%.

Segundo o InfoMoney, a projeção para 2027 subiu de 11,75% para 12,50% ao ano e, para 2028, a estimativa avançou de 10,00% para 11,00%. A inflação esperada também subiu: a projeção para o IPCA de 2027 subiu de 4,34% para 4,76%. Pela nossa conta, uma Selic atual de 13,75% contra esse IPCA projetado dá juro real de cerca de 8,6% ao ano (1,1375 ÷ 1,0476 − 1). Poucos países pagam isso. É esse prêmio que o Seu Dinheiro manda capturar.

O receio fiscal por trás disso já apareceu em outras casas: a redução de recomendação de ativos brasileiros por Citigroup e BCA Research seguiu o mesmo raciocínio. O mercado ainda espera os sinais concretos que o UBS listou nos três testes fiscais para o governo acalmar o mercado. Falta responder a dúvida que mais gera pânico.

Se o real desvalorizar, eu perco tudo?

Não, e é exatamente isso que o vídeo do Seu Dinheiro faz questão de esclarecer. Desvalorizar significa que o real compra menos dólares, não que ele desaparece. A conta prática ajuda: o dólar subiu cerca de 10% desde a véspera do segundo turno. Um ano de Tesouro Selic a 13,75%, já descontado o IR de 17,5% para prazos de seis meses a um ano, rende cerca de 11,3% líquidos (estimativa nossa: 13,75% × 0,825). Ou seja, o pior susto cambial em décadas equivale, em reais, a mais ou menos um ano de rendimento da renda fixa pós-fixada.

Também dá para comparar com o juro americano. Com o Treasury de 10 anos perto do patamar que mostramos quando o rendimento americano de 10 anos recuou e aliviou os mercados, o dólar precisaria subir algo como 8% ao ano, todo ano, para que o título americano empatasse com a Selic (1,1375 ÷ 1,0509 − 1, estimativa nossa, sem impostos e sem oscilação de preço). Isso pode acontecer num ano ruim. Como regra, ano após ano, é difícil. Por isso a recomendação não é trocar tudo por dólar: é ter uma parte lá fora, em renda variável, e deixar a base da carteira rendendo o juro brasileiro.

E o mercado nem projeta um real em queda livre: segundo o Focus, a projeção para o dólar em 2027 subiu de R$ 5,15 para R$ 5,40, abaixo da cotação desta sexta. O que, então, muda na prática para cada pedaço da carteira?

O que isso muda para quem investe

Reserva e caixa: Tesouro Selic e CDB de liquidez diária seguem rendendo forte, e a pausa do Copom adia a queda desse rendimento. Longo prazo: o Tesouro IPCA+ de prazo médio voltou a pagar mais de 8% acima da inflação, nível para travar só se você pretende levar até o vencimento. FIIs: fundos de tijolo competem com esse juro real e tendem a ficar pressionados; fundos de papel atrelados a CDI e IPCA carregam o prêmio para o rendimento mensal. Bolsa: a recomendação desloca a renda variável para fora, via ETFs e BDRs, o que também diversifica a moeda.

Onde essa estratégia pode dar errado?

No preço dos títulos longos, e no próprio fiscal, se ele surpreender para melhor. O caminho até o vencimento oscila muito: no dia seguinte ao segundo turno, segundo o InfoMoney, o preço do Tesouro IPCA+ 2050 fecha 12,6% abaixo do de sexta-feira, depois de chegar a cair 23,6% na abertura. Quem precisar vender antes do prazo pode sair com prejuízo. O sinal do Planalto também conta: o ministro Dario Durigan descartou adotar o teto de juros proposto por Lara Resende, o que afastou um risco de interferência. Já a discussão do Orçamento de 2027 e os gastos mínimos de saúde e educação vai mostrar se o déficit é tão persistente quanto a tese supõe.

  • O juro real perto de 8,6% ao ano, pela conta com a projeção do Focus, está entre os mais altos do mundo, e a pausa do Copom adia os cortes.
  • O Focus elevou a Selic esperada para 2027 e 2028: o "por mais tempo" já está nas projeções do mercado, não só no discurso.
  • Pôr parte da bolsa lá fora protege contra o câmbio sem apostar todo o patrimônio na queda do real.
  • Títulos longos (IPCA+ 2050, prefixados) podem perder dois dígitos no preço em um único dia; servem só para quem vai até o vencimento.
  • Se o governo surpreender no ajuste fiscal, os juros futuros caem e a bolsa brasileira tende a subir mais rápido do que a renda fixa. Quem zerou ações locais fica de fora dessa alta.