O dinheiro está saindo, e rápido. Segundo o Banco Central do Paraguai (BCP), 64% das 1,87 milhão de contas com saldo no Ueno Bank já receberam a devolução, cinco dias depois da intervenção. Para o investidor brasileiro, o caso mostra na prática o que um fundo garantidor cobre e onde ele para.
O que aconteceu com o ressarcimento do Ueno Bank?
O Banco Central do Paraguai informou no sábado (7) que já devolveu dinheiro a 64% das 1,87 milhão de contas com saldo no Ueno Bank, banco digital sob intervenção desde terça-feira (3). Outras 669.336 contas ainda aguardam a restituição. Pedro Acosta, presidente interino do BCP, contou que o pagamento saiu em dois lotes: um de 722 mil contas e outro, no dia seguinte, de 475 mil. Ele também disse que a base de contas já desconta as que estavam zeradas.
Dois lotes: 722 mil e 475 mil.
Devedores, contas bloqueadas e saldos maiores.
994,6 bilhões de guaranis, segundo o BCP.
Os veículos não batem exatamente no valor. A imprensa argentina fala em 996 bilhões de guaranis pagos, e outro relato arredonda para US$ 160 milhões. A diferença é pequena, mas a conta por trás dela mostra outra coisa. Dividindo o valor pago pelo número de contas pagas, a média fica em cerca de 830 mil guaranis por conta, ou uns US$ 132 (conta nossa). Ou seja, **"64% das contas" está longe de ser 64% do dinheiro.** Foram pagos primeiro os saldos pequenos: a primeira etapa atendeu clientes com até 10 milhões de guaranis, uns US$ 1.565, que não deviam ao banco e tinham conta em outra instituição. Uma segunda leva foi de 10 milhões de guaranis até 40 salários mínimos, o equivalente a 121,7 milhões.
Então quem está nas contas que faltam, e quanto vai receber?
Quem ainda não recebeu e até quanto a garantia paga?
São três grupos. O primeiro é quem tem dívida com o banco. A partir de segunda-feira (9), o BC paraguaio pretende pagar também esses clientes, descontando antes os valores vencidos. Um exemplo ilustrativo: quem tinha 5 milhões de guaranis na conta e devia 2 milhões já vencidos recebe 3 milhões. O segundo grupo é o das contas bloqueadas. Segundo o BCP, elas devem ser pagas na segunda ou, no máximo, na terça (10). O terceiro grupo tem saldos entre 40 e 75 salários mínimos e ainda precisa receber o restante. O BCP diz que vai pagar também no fim de semana e quer terminar os adiantamentos na quarta-feira.
O teto é o que decide o resto. O Fundo de Garantia de Depósitos paraguaio cobre até 228,3 milhões de guaranis por depositante e por entidade, o equivalente a 75 salários mínimos locais, cerca de US$ 38.300. Quem tem várias contas no Ueno tem o limite aplicado à soma dos depósitos. Pelas estimativas preliminares, cerca de 97% dos depositantes estão com o dinheiro totalmente coberto. Para os 3% restantes a notícia é pior: o que passa do limite depende da recuperação de recursos na liquidação, sem prazo definido.
Esses 3% concentram muito dinheiro. O Ueno tinha cerca de 3 milhões de clientes e administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos. A intervenção gerou preocupação também com os fundos de aposentadoria depositados no banco. É aqui que entra a comparação que a imprensa brasileira fez desde o primeiro dia.
Por que o caso virou o "Master do Paraguai" e o que a comparação mostra?
O motivo da quebra lembra o caso brasileiro. O banco sofreu intervenção depois que seu índice de solvência caiu para menos da metade do mínimo exigido. Segundo o então presidente do BCP, a fiscalização começou em junho, quando a Superintendência de Bancos encontrou indícios de créditos concedidos pelo Ueno a empresas ligadas "ao grupo que controla a entidade". Pouco antes da intervenção, o próprio banco afirmava publicamente que operava "com normalidade". A crise também derrubou gente no governo: levou à saída do presidente do BC, Carlos Carvallo Spalding, à destituição de Santiago Peña pelo Congresso e à prisão domiciliar do ex-presidente, segundo a imprensa. Os antecedentes estão no nosso texto sobre o que aconteceu com o Ueno Bank.
Na velocidade do pagamento, os dois casos se afastam:
| Ueno Bank (Paraguai) | Banco Master (Brasil) | |
|---|---|---|
| Decretação | 03/11/2026 | 18/11/2025 |
| Primeiro pagamento | 05/11/2026, à noite | Janeiro de 2026 |
| Intervalo | ~2 dias | 63 dias |
| Teto por pessoa | 75 salários mínimos (~US$ 38 mil) | R$ 250 mil |
| Formato | Adiantamentos em faixas | Valor coberto pago de uma vez |
No Paraguai, o BCP começou a pagar as garantias na quinta-feira à noite, dois dias depois da intervenção. No Brasil, o FGC começou a pagar 63 dias depois da liquidação do Master, o maior intervalo desde 2016. A rapidez paraguaia, porém, tem uma ressalva. O primeiro pagamento foi um adiantamento pequeno, e o BCP tem pela lei 15 dias para devolver os depósitos garantidos, prorrogáveis por mais 15. Aqui, quem tinha R$ 200 mil em CDBs do Master recebeu tudo num único pagamento, só que dois meses depois.
O que isso quer dizer para quem investe pelo FGC?
O que o caso Ueno muda para quem tem CDB, LCI ou conta em banco digital no Brasil?
Na carteira, nada: o Ueno é paraguaio, e o efeito direto no investidor brasileiro é praticamente nulo. O caso serve de lembrete sobre três regras. A garantia daqui tem teto por CPF e por instituição. Ela não tem prazo legal para pagar. E o que passar do teto vira crédito numa liquidação que pode levar anos.
A segunda regra é a que mais pega o investidor de surpresa. O próprio FGC informa que não há prazo definido em lei para o pagamento da garantia, que só começa depois que o liquidante nomeado pelo BC monta a lista de credores com o valor de cada um. Também existe um limite que pouca gente conhece: quando há mais de uma intervenção ou liquidação, o total é de R$ 1 milhão a cada quatro anos, contados do primeiro pagamento.
O drama dos recursos públicos presos no Ueno também tem uma versão brasileira. No Master, o caso envolveu pelo menos 18 fundos de pensão do funcionalismo público de estados e municípios, e o que eles tinham acima do teto ou fora dos produtos cobertos ficou fora do FGC. A mesma dúvida sobre o que está e o que não está protegido apareceu quando o BC liquidou a MW Pay, ligada ao Pix. Do lado da regulação, o BC brasileiro já se mexe em regras para limitar o crédito sem garantia, que é o tipo de exposição que costuma minar a solvência de um banco antes de ela aparecer no balanço.
Então, como reconhecer um Ueno antes da intervenção?
Que sinais do Ueno valem para escolher onde aplicar?
Nenhum investidor pessoa física teria acesso ao relatório da Superintendência. Mas o caso deixa critérios que qualquer um consegue aplicar:
- Crédito para empresas do próprio dono do banco: foi o achado que levou à fiscalização em junho. No Brasil, notícias de empréstimos a partes relacionadas merecem atenção.
- Nota pública dizendo que "está tudo normal": o Ueno disse isso horas antes de ser fechado. Um comunicado tranquilizador não substitui o índice de capital publicado.
- Taxa muito acima da de bancos do mesmo porte, sem explicação: é o banco pagando caro para captar porque tem dificuldade de fazer isso mais barato.
- Ficar abaixo de R$ 250 mil por instituição, contando os juros até o vencimento, e não só o valor aplicado.
- Preferir produtos cobertos (CDB, LCI, LCA, LC) a letras financeiras e outros títulos sem garantia quando a ideia é não correr risco de crédito.
- Deixar a reserva de emergência fora de bancos pequenos: mesmo o dinheiro coberto pode ficar travado por dois meses, como no Master.
No Paraguai, há três coisas a acompanhar nesta semana. A primeira é se os pagamentos de devedores e contas bloqueadas saem na segunda e na terça, como o BCP prometeu. A segunda é se os adiantamentos terminam na quarta. A terceira, a que pesa mais, é quanto a liquidação vai recuperar para quem tinha mais que o teto, inclusive o Estado. Quem acompanha o crédito privado por aqui também tem o aperto do governo e do BC nas regras dos FIDCs, outro produto de renda fixa que não tem cobertura do FGC.