A Vivara vendeu mais no terceiro trimestre, mas lucrou bem menos: segundo a empresa, o lucro ajustado caiu 22,2%, e a ação chegou a cair 8% na sexta-feira. Para quem tem VIVA3, a dúvida agora é se essa margem volta e quanto sobra para o dividendo de dezembro.
Como foram os resultados da Vivara (VIVA3) no 3T26?
O lucro piorou e o caixa melhorou. A Vivara encerrou o terceiro trimestre de 2026 com lucro líquido ajustado de R$ 119,9 milhões (visão pré-IFRS 16), uma retração de 22,2% em relação aos R$ 154,0 milhões do mesmo período de 2025. As vendas cresceram: a receita líquida somou R$ 692,9 milhões, avanço de 4,3%, e a receita bruta alcançou R$ 867,4 milhões, alta de 7,7%.
A queda não é só de um trimestre. No acumulado dos nove meses de 2026, o lucro líquido ajustado foi de R$ 367,9 milhões, recuo de 15,1% sobre os R$ 433,6 milhões do 9M25. O 3T26 também marca uma virada em relação ao trimestre anterior: entre abril e junho, a empresa teve lucro líquido de R$ 156,7 milhões, com crescimento anual de 0,9%.
Quem leu as manchetes deve ter visto três números de lucro diferentes. Todos estão certos, mas medem coisas diferentes:
−22,2%. É o número que a empresa destaca e o que melhor mostra a operação.
−38,7% contra R$ 187,4 mi. É o número que a Reuters usou.
−39,4%. Vem da demonstração contábil completa, como mostrou o TradeMap.
A diferença entre os números contábeis e o ajustado vem principalmente da base de comparação. O 3T25 tinha créditos não recorrentes: o Ebitda ajustado foi de R$ 132,7 milhões, recuo de 22,4% na comparação anual, após excluir os créditos do ano passado. Neste trimestre, lançamentos contábeis sem efeito caixa, ligados à atualização de políticas e controles internos, tiveram impacto líquido de R$ 5,1 milhões no lucro, e esses valores foram excluídos do resultado ajustado. O problema é que mesmo o número ajustado, que já tira essas distorções, caiu mais de um quinto. Então a queda não é efeito de contabilidade.
Por que o lucro caiu se a Vivara vendeu mais?
Porque cada real vendido passou a deixar menos lucro. Três fatores se somaram:
O ouro é a primeira causa. Nossa ficha de riscos já apontava que a cotação do metal recuou 24% entre fevereiro e julho. Com o ouro mais barato, a Vivara optou por não reajustar preços. As joias respondem por cerca de metade da receita da Vivara e cresceram só 2,1% sobre o 3º trimestre de 2025; nas alianças e nos itens mais sensíveis ao preço do metal, a empresa preferiu segurar o preço. O efeito aparece no lucro bruto: a margem bruta ajustada diminuiu de 71,3% para 67,8%, e também veio aquém dos 69,6% projetados.
A segunda causa é a fábrica. Segundo a Vivara, o resultado foi afetado pela menor receita de subvenção líquida de tributos, pelo maior custo de Gastos Gerais de Fabricação (GGF) e pela inclusão do Plano de Incentivo de Longo Prazo (ILP) a partir do segundo trimestre. A Vivara produz suas peças em Manaus, com incentivos da Zona Franca que dependem do volume fabricado. Com menos produção, sobra menos incentivo fiscal.
A terceira é o custo da expansão, e é aqui que o balanço contraria o que esperávamos. Nossa tese dizia que as despesas das 59 lojas abertas em doze meses seriam diluídas à medida que as unidades amadurecessem. Isso ainda não aconteceu: as despesas operacionais ajustadas subiram 11,3%, para R$ 337,3 milhões, com maiores gastos com pessoal e marketing para sustentar as aberturas de lojas. As despesas cresceram quase três vezes mais rápido que a receita líquida. Ao mesmo tempo, as lojas já existentes desaceleraram: as vendas em lojas comparáveis subiram 4,4%, contra 10,7% no mesmo intervalo do ano anterior.
Também houve pontos positivos. As vendas digitais subiram 25,3%, com o app disparando 144%, e a dívida líquida caiu R$ 204,9 milhões, para R$ 149,7 milhões. Os estoques, como já mostrava nossa leitura do release, ficaram em 582 dias, 141 a menos que um ano antes. A empresa gerou caixa, mas o lucro caiu. Foi o lucro que pesou na reação da ação.
O balanço veio pior do que o mercado esperava?
Depende da régua. No lucro reportado, a Vivara superou o consenso: analistas, em média, esperavam lucro líquido de R$ 111 milhões, segundo dados da LSEG. Já a XP olhou para a operação e não gostou: classificou o trimestre como fraco, com Ebitda ajustado 12% abaixo da estimativa da casa e lucro 8% abaixo.
O mercado deu mais peso à leitura da XP. Às 10h30 de sexta, os papéis caíam 8,25%, a R$ 16,68, nos níveis de março de 2025, o pior desempenho do Ibovespa. A queda perdeu força ao longo do dia, e a Vivara fechou em baixa de 2,92%, a R$ 17,67. Para quem está posicionado, a base importa: a ação valia R$ 18,18 na quarta-feira (05/11), já acumulava queda de 45% no ano e chegou a R$ 36,65 na máxima de 12 meses. O balanço aprofundou uma queda que já vinha de antes. O movimento de todo o varejo com os juros também pesa, como mostramos na análise da alta da Centauro com a Selic.
Mesmo assim, a ação está barata pelo múltiplo. Pela nossa estimativa, trocar o lucro reportado do 3T25 pelo do 3T26 tira cerca de R$ 72,6 milhões do lucro de 12 meses. Com cerca de 236 milhões de ações (número que deduzimos da fatia de 10,17% que a Guepardo Investimentos informou ter em 04/11), o lucro por ação cai de R$ 2,49 para cerca de R$ 2,18. Ao preço de fechamento, isso dá P/L de 8 vezes. Barato seria se a margem voltasse. Se ela continuar onde está, o lucro tende a seguir encolhendo. O padrão de receita em alta com lucro em queda apareceu em outros balanços da temporada, como no resultado da LWSA com lucro em queda.
VIVA3 paga dividendos? E o de dezembro está em risco?
Paga, mas não todo mês. A Vivara costuma distribuir uma ou duas vezes por ano, em abril e em dezembro. Os últimos foram R$ 0,66 por ação com data-ex em abril de 2025 e R$ 0,6977, referente ao 3T25, pago em 30/12/2025. Em 2026, nada foi pago até agora: o Status Invest registra R$ 0,0000 recebidos entre 01/01/2026 e 05/11/2026. Nenhuma das reportagens sobre o balanço menciona anúncio de provento junto com o 3T26.
O dividendo de dezembro do ano passado somou cerca de R$ 165 milhões (R$ 0,6977 × 236 milhões de ações), um pouco mais que todo o lucro ajustado do 3T25. Se a empresa mantiver essa proporção sobre o lucro deste trimestre, que foi menor, o valor por ação cai. Fizemos três cenários, e todos são estimativas nossas:
Usa o caixa reforçado e a dívida baixa para manter o valor, apesar do lucro menor.
Mesma relação dividendo/lucro do ano passado aplicada ao 3T26.
Empresa preserva caixa para a expansão e repete o ano de 2026 sem provento.
Os rendimentos dos cenários usam o fechamento de R$ 17,67. O caixa permite pagar: a dívida líquida está perto de zero em relação ao Ebitda, e a emissão de debêntures de R$ 300 milhões em outubro alongou os prazos. O que pode segurar o pagamento é o lucro em queda, somado à decisão de seguir abrindo lojas. Nem todo o varejo teve um trimestre assim: o lucro da Pague Menos subiu no mesmo período, o que mostra que parte do problema da Vivara é dela mesma, ligada ao ouro e à fábrica, e não só do consumo.
Um último dado de contexto: nosso modelo de valuation marca VIVA3 como "evitar", com preço justo de R$ 8,93. A confiança desse cálculo é baixa, e o próprio modelo indica que o número está fora da faixa considerada crível. Leia como sinal de cautela, não como preço-alvo.
O que observar no 4T26, o trimestre do Natal?
Margem bruta ajustada: voltar acima dos 69,6% que o mercado projetava para o 3T26 mostraria que o efeito do ouro foi passageiro. Ficar abaixo de 68% confirma que a empresa trocou margem por volume.
Vendas nas mesmas lojas: crescer acima dos 4,4% do 3T26 no trimestre mais forte do ano. Se cair abaixo disso, fica difícil sustentar a tese de expansão.
Despesas × receita: as despesas precisam crescer menos que a receita líquida. Repetir alta de dois dígitos com receita crescendo 4% derruba a promessa de que as lojas novas vão amadurecer.
Anúncio de dividendo em dezembro: R$ 0,54 por ação ou mais indica que a empresa mantém a política de distribuição. Abaixo disso, ou sem anúncio, o caixa estará indo para a expansão.