Segundo a Reuters, as ações americanas fecharam em forte queda na sexta-feira (30/10), com o Nasdaq caindo 2,9% — sua maior baixa percentual em um único dia desde 5 de junho. O estopim foram os balanços de Intel e Amazon, que reacenderam a dúvida sobre se os gastos gigantescos com inteligência artificial vão dar retorno.
O que derrubou Wall Street na sexta-feira?
De acordo com a Reuters, os três principais índices acionários americanos terminaram no vermelho, e o Nasdaq, que tem forte presença de tecnologia, foi o que mais sofreu. A queda foi desencadeada pelos resultados trimestrais de Intel e Amazon, divulgados na noite de quinta-feira, e se espalhou pelo setor de semicondutores e de fabricantes de servidores. A Amazon chegou a reduzir suas perdas ao longo do pregão; a Intel, não.
O desenho da queda mostra onde a dor se concentrou. Pelos números que a Reuters reporta, quanto mais perto do hardware da IA, maior o tombo:
A Intel foi o caso extremo, com o papel desabando quase um terço numa sessão. Mas o que assusta o mercado é o contágio: a Nvidia, que costuma ser a bússola do setor, caiu "só" 4,2%, e mesmo assim o índice amplo de chips perdeu 7,2% no dia. Quando fabricantes de servidores como Dell e HP também caem perto de 10%, a leitura é de que o problema não é uma empresa — é a conta da IA.
Quão grave é a queda? A conta do recorde
Um dia ruim não faz tendência, e é por isso que a distância do pico importa mais que o percentual diário. Pela Reuters, o Nasdaq está 7,8% abaixo do seu recorde de fechamento, de 6 de outubro — ou seja, em menos de um mês o índice devolveu quase oito pontos percentuais do que tinha construído. Já o índice de chips acumula perda de mais de 15% no mês.
Para dar a escala em pontos, a nossa página do Nasdaq registrou o Nasdaq 100 em 28.384,85 pontos na rodada, com variação de -3,46% no dia. Repare que o número não bate com o 2,9% da Reuters: são medições diferentes, feitas por fontes diferentes, e o que vale como leitura é a ordem de grandeza — uma queda de quase 3% a 3,5% num índice desse tamanho é um dia fora do comum.
Também não é a primeira vez em pouco tempo. Na semana passada mostramos por que o Nasdaq caiu 2,60% e as techs despencaram depois de um alerta da Meta sobre IA. O padrão se repete: a cada balanço de uma gigante, o mercado reabre a mesma discussão.
O que a inteligência artificial tem a ver com isso?
As empresas de tecnologia vêm gastando valores enormes em chips, servidores e data centers para treinar e rodar IA. Enquanto os resultados vinham bons, ninguém questionava. Balanços fracos de duas peças centrais dessa cadeia fizeram o mercado perguntar quando o dinheiro volta. Oliver Pursche resumiu assim à Reuters:
“É justo dizer que esta semana, e não apenas hoje, tem girado em torno do futuro da IA e de como ele será, se haverá um retorno positivo sobre o investimento e, em caso afirmativo, com que rapidez.”Oliver Pursche, citado pela Reuters
A frase mostra por que a queda foi tão ampla. O risco apontado não é "a IA deu errado", é "o preço das ações já assumia retorno rápido". Quando as ações já estão caras, qualquer sinal de que o retorno vai demorar derruba os múltiplos. Esse movimento de cautela também aparece fora das bigtechs: já mostramos como bancos estão cortando gastos com IA por falta de retorno.
E o Brasil, entra nessa conta?
A mesma reportagem lembra que o Ibovespa caiu 18,12% na semana, a maior baixa desde 2020 e a quinta maior desde o Plano Real, num cenário descrito como bastante incerto por causa das preocupações fiscais para o ano que vem. Ou seja: a semana ruim do investidor brasileiro tem duas camadas, uma doméstica (o fiscal) e uma externa (a tecnologia americana). Detalhamos a primeira em por que o Ibovespa caiu 18,12% na semana.
A lógica de contágio é conhecida: quando as techs americanas derretem, o apetite global por risco encolhe e os mercados emergentes costumam sentir, porque o dinheiro foge dos ativos mais voláteis primeiro. As fontes não dizem quanto da queda do Ibovespa vem de Nova York, então não vale atribuir um peso exato — mas vale entender que as duas pressões somam, não se anulam.
Quem tem ETF de S&P 500, Nasdaq ou BDRs de tecnologia viu o valor da carteira cair de uma vez — e o índice de referência, o S&P 500, também perdeu terreno, embora as fontes não tragam o percentual dele. O que as fontes sustentam é que o motivo é específico (balanços e custo da IA), não um colapso generalizado. Isso não diz que a queda acabou, nem que vai continuar. Para quem investe aos poucos, o ponto é checar quanto da carteira está concentrado em tecnologia americana: é essa fatia que o evento de sexta atingiu em cheio.
O que acompanhar daqui para a frente
Sem bola de cristal, o que se pode fazer é vigiar os números que a própria reportagem entrega como régua:
O recorde de 6 de outubro — o Nasdaq está 7,8% abaixo dele; se essa distância encolher, o susto foi pontual, se aumentar, o mercado está reprecificando a IA.
O setor de chips — perda de mais de 15% no mês e queda de 7,2% na sexta; enquanto o índice não parar de cair, o contágio para o restante da tecnologia segue aberto.
A Intel depois dos -28,6% — se o papel estabilizar ou se novos resultados de outras empresas seguirem o mesmo roteiro, o recado sobre o retorno da IA ganha força.
Os juros americanos — o que o Fed decidir mexe no apetite por ações caras; veja como o Nasdaq reagiu quando o Fed adiou cortes.
Veredito: a Reuters descreve uma queda com causa identificada — balanços fracos de Intel e Amazon e a dúvida sobre o retorno dos gastos em IA —, e não um pânico sem motivo. O Nasdaq cedeu 2,9% e está 7,8% abaixo do pico. É um sinal de que o mercado ficou menos tolerante com a promessa da IA, e a decisão de agir ou não depende de quanto da sua carteira está nessa aposta.