A Alpargatas entregou à CVM, em 06/11/2026, os resultados do terceiro trimestre de 2026. Receita subiu 11%, EBITDA avançou na mesma proporção e, pelo que mais importava acompanhar na tese, a operação internacional da Havaianas registrou EBITDA positivo pela primeira vez em quatro anos. Resultado bom — e que chega num momento em que o mercado já vinha precificando boa parte dessa recuperação.
O que aconteceu com a ação ALPA4 no 3T26?
A ação ALPA4 representa a Alpargatas S.A., dona da marca Havaianas. No terceiro trimestre de 2026, a companhia reportou receita líquida de R$ 1,24 bilhão, crescimento de 11% sobre o 3T25, e EBITDA ajustado de R$ 283,5 milhões, com margem de 22,9%. O lucro líquido chegou a R$ 175,5 milhões, alta de 2% sobre os R$ 171,3 milhões do mesmo período do ano anterior. A comparação completa com o terceiro trimestre de 2025 está abaixo.
| Indicador | 3T26 | 3T25 | Variação |
|---|---|---|---|
| Receita Líquida | R$ 1,24 bi | R$ 1,12 bi | +11% |
| EBITDA Ajustado | R$ 284 mi | R$ 256 mi | +11% |
| Margem EBITDA | 22,9% | 22,9% | estável |
| Lucro Bruto | R$ 653 mi | R$ 586 mi | +11% |
| Margem Bruta | 52,7% | 52,5% | +0,2 p.p. |
| Lucro Líquido | R$ 175,5 mi | R$ 171,3 mi | +2% |
Uma observação antes de seguir: quem busca ALPA4 e não a encontra nas telas da corretora pode estar olhando para ALPA3, a versão de ações ordinárias. São dois papéis diferentes da mesma empresa — ALPA4 é o preferencial e continua negociado normalmente na B3.
Brasil bate o maior EBITDA da série histórica — com uma ressalva nas margens
No mercado doméstico, a Alpargatas vendeu 55 milhões de pares no trimestre, alta de 7% sobre o 3T25, com crescimento de sell-out de 8%. O canal alimentar — um dos mais competitivos para a marca — ganhou 2,7 pontos percentuais de participação de mercado ao longo do período. O resultado operacional do Brasil chegou a R$ 267 milhões, o maior da série histórica da companhia para qualquer trimestre, segundo o próprio documento entregue à CVM. Receita líquida na operação doméstica cresceu 13% na comparação anual.
Mas a margem EBITDA do Brasil foi de 27% — cedendo 2,6 pontos percentuais em relação ao 3T25. A companhia explica: maior investimento em marketing (alinhado ao calendário anual da marca), despesas mais altas com distribuição e o impacto da reoneração da folha de pagamentos. São aumentos de custo esperados e declarados, não uma surpresa, mas precisam ser monitorados porque podem pressionar as margens nos próximos trimestres caso o crescimento de receita desacelere. Vale lembrar que, em setembro, a ação caiu isoladamente numa sessão em que o mercado subia, sem evento concreto no dia — sinal de que o mercado estava atento a qualquer indício de deterioração. Este trimestre não apresenta deterioração, mas o custo está crescendo.
Internacional positivo pela primeira vez em quatro anos
Essa é a mudança mais relevante do trimestre. A operação internacional da Havaianas gerou EBITDA de R$ 16,6 milhões no 3T26, contra um resultado negativo de R$ 5,8 milhões no 3T25. A receita líquida internacional foi de R$ 236 milhões, sustentada por crescimento de 15% no volume de pares vendidos (5,6 milhões no trimestre). O documento atribui o resultado ao novo modelo de negócios nos Estados Unidos e ao desempenho positivo na Europa e nos mercados distribuidores.
EBITDA internacional positivo pela primeira vez em quatro anos.Alpargatas S.A., resultado 3T26, entregue à CVM em 06/11/2026
Isso importa para a tese de forma direta: até aqui, o crescimento doméstico sustentava o resultado consolidado enquanto o exterior consumia caixa. Com o internacional virando — ainda que por margem pequena de R$ 16,6 mi —, a Alpargatas passa a ter dois vetores positivos ao mesmo tempo pela primeira vez desde pelo menos 2022. O 3T tem sazonalidade específica para a marca, com menor volume do que o 4T, o que torna o resultado mais significativo: a operação externa fechou no positivo mesmo num trimestre que não é o mais favorável para venda de sandálias na Europa e nos EUA.
A geração de caixa no trimestre foi de R$ 151 milhões, o que reduziu a alavancagem para 0,3x dívida líquida sobre EBITDA dos últimos 12 meses (R$ 353 milhões de dívida líquida). O ROIC chegou a 18,9% no LTM do 3T26, alta de 8,8 pontos percentuais sobre o mesmo indicador do ano anterior — um dado que mostra que o capital investido está gerando retorno crescente em ritmo acelerado. Com isso, a empresa tem folga para investir, seja em CAPEX (R$ 65 milhões no trimestre, dentro do orçamento de R$ 243 milhões para o ano) ou em Rothy's.
Rothy's: crescimento de receita, mas ainda no vermelho
A marca norte-americana Rothy's — na qual a Alpargatas mantém participação de 48,8% — teve receita líquida de US$ 51 milhões no 3T26, alta de 12% sobre o 3T25. O EBITDA, porém, foi negativo em US$ 2,2 milhões. Não é uma hemorragia, mas tampouco contribui para o consolidado. O documento menciona consumo de capital de giro de R$ 39 milhões no trimestre, parte relacionado ao aumento de recebíveis nos Estados Unidos e na Europa, sem mudanças relevantes nas políticas comerciais com clientes ou fornecedores. A pergunta que o documento não responde: a que velocidade o EBITDA da Rothy's vai chegar ao zero — e quanto de caixa será necessário até lá. É o único vetor com risco real não equacionado no consolidado.
No quadro geral dos resultados trimestrais que outros emissores também divulgaram nesta semana — como o resultado do 3T26 da Sabesp e o resultado do 3T26 da Localiza —, a Alpargatas se destaca pela combinação de crescimento operacional com desalavancagem. Enquanto boa parte das empresas que reportou neste ciclo lidou com dívida crescente, a Alpargatas reduziu alavancagem e ainda gerou R$ 433 milhões de caixa nos últimos 12 meses.
O que muda para quem tem ALPA4
A tese de recuperação operacional foi confirmada neste trimestre: Brasil em recorde histórico de EBITDA, internacional no positivo, alavancagem baixa e ROIC em alta acelerada. O problema é que o mercado já estava antecipando boa parte disso. Segundo analistas do Citi, o turnaround da Alpargatas funcionou — mas o mercado parece ter colocado grande parte dessa melhora no preço após um rali superior a 100% em 12 meses. Já o Bank of America e o UBS mantêm visão de compra com preço-alvo de R$ 16, entendendo que os múltiplos atuais são compatíveis com uma fase de crescimento acelerado. O site avalia o preço justo em R$ 9,54, calculado com cotação de R$ 14,25 em 30/09/2026, com veredito de "evitar" — os resultados do 3T26 são positivos e reforçam os fundamentos, mas não eliminam o prêmio que o mercado já cobra. Para quem comprou antes da valorização, o resultado reforça a tese; para quem pensa em entrar agora, a discussão é sobre quanto dessas melhorias ainda não está no preço.
Margem EBITDA Brasil — acompanhar se os maiores gastos com marketing e distribuição seguem crescendo nos próximos trimestres; uma segunda contração abaixo de 25% seria sinal de pressão estrutural nos custos, não sazonalidade.
Internacional no 4T26 — o 4T é o mais importante sazonalmente para a Havaianas; confirmar se a operação mantém EBITDA positivo com maior volume, o que consolidaria a virada como estrutural, não pontual.
Rothy's: prazo de break-even — monitorar quando o EBITDA da marca vai virar positivo e quanto de capital de giro a Alpargatas precisará injetar até lá; o documento não declarou prazo nem projeção.
Videoconferência de resultados — a Alpargatas marcou a teleconferência para 09/11/2026 (segunda-feira) às 09h (BRT); é quando a gestão deve detalhar o guidance de CAPEX e dar mais cor sobre o novo modelo nos EUA e a evolução do capital de giro.