A adesão anda, mas devagar. Segundo reportagem do InfoMoney, com dados da Apiimf, a associação que conecta as registradoras, pelo menos 233 estabelecimentos estão cadastrados para emitir duplicata escritural a pouco mais de dois meses da operação plena, uma fração mínima do universo possível. Para quem investe, isso significa que o ganho prometido a B3, bancos médios e FIDCs fica para 2027.
A duplicata escritural está mesmo travada?
Não parou, mas está longe da escala prometida. Há cerca de um mês, eram aproximadamente 20 empresas cadastradas como sacadoras (as fornecedoras que emitem o título), segundo Calil Gedeon, CFO da fintech de antecipação de recebíveis Monkey. O número multiplicou por mais de 11 em quatro semanas, e a lista da Apiimf já inclui filiais de Nestlé, Chocolates Garoto e Grupo Petrópolis. Para Gedeon, as empresas deixaram de esperar e "já começaram a se mexer".
A ordem de grandeza mostra o tamanho do caminho. Pelo cronograma do Banco Central, cerca de 2 milhões de empresas emitem duplicatas e vão ser afetadas pela mudança. Ou seja, as 233 de hoje equivalem a algo como 0,01% desse universo (conta nossa). Hoje o sistema roda num ambiente controlado, com poucas operações, nas três registradoras autorizadas a escriturar: Cerc, B3 e Núclea. Em janeiro, o modelo passa à operação plena, mas a adesão continua voluntária. Se a regra está pronta, por que as empresas não entram?
O que segura as empresas: três gargalos operacionais
Segundo a reportagem, executivos das registradoras apontam três fatores que impedem uma adoção em massa. Nenhum depende de vontade da empresa. Todos são travas do desenho da transição.
Tombamento. A empresa que já cedeu recebíveis futuros a um banco ou FIDC não pode entrar enquanto esses contratos não forem levados para o novo sistema. Pelas regras publicadas pela B3, esse sacador fica com status "Restrito" e continua no regime de papel. Isso exclui justamente as empresas que mais usam a duplicata para se financiar.
Restrição do sacado. Só dá para emitir duplicata escritural contra um comprador que já esteja no sistema. Na primeira fase, até setembro, ele precisava estar até na mesma escrituradora do fornecedor. Basta um cliente grande fora do sistema para o fornecedor não conseguir migrar suas vendas a ele.
Liquidação sem boleto dinâmico. Para o CEO da Cerc, Fernando Fontes, o maior atrito está em garantir que o pagamento chegue ao credor certo depois que um banco antecipa o valor. Hoje, o comprador teria de consultar a registradora antes de cada pagamento, algo inviável para quem paga centenas de faturas. Segundo a reportagem, a saída é o boleto dinâmico, que muda o beneficiário sozinho quando o título troca de dono. O Banco Central deve colocá-lo em operação em fevereiro. Fontes resume que muitas empresas já contrataram e integraram os sistemas, mas "ainda não fizeram a virada definitiva".
Há ainda uma disputa de atenção: o setor produtivo está ocupado com a reforma tributária. Os departamentos financeiro e de TI que teriam de integrar a duplicata estão adaptando sistemas para a CBS e o IBS, cuja alíquota ainda está em debate, como mostramos na rejeição de Eduardo Braga ao cálculo da CBS. Isso leva à pergunta sobre o prazo: quando deixa de ser opcional?
Quando a duplicata escritural vira obrigatória?
A obrigação vale para quem financia, não para quem vende. A partir de cada data, bancos e FIDCs só poderão descontar ou comprar duplicatas de uma empresa daquele porte se elas forem escriturais. A duplicata de papel continua válida para cobrança. As datas abaixo são as do cronograma que o Banco Central divulgou no lançamento do ecossistema, em 30 de junho de 2026:
| Etapa | Quando | Quem entra |
|---|---|---|
| Operação plena (voluntária) | Janeiro de 2027 | Qualquer sacador que queira |
| Grandes empresas | Junho de 2027 | Receita bruta anual acima de R$ 300 milhões |
| Médias empresas | Dezembro de 2027 | Entre R$ 4,8 milhões e R$ 300 milhões |
| Pequenas empresas | Junho de 2028 | Entre R$ 360 mil e R$ 4,8 milhões |
Há uma divergência que vale registrar. A reportagem do InfoMoney fala em obrigatoriedade a partir de julho de 2027, enquanto o cronograma divulgado pelo BC, repetido por bancos e registradoras, marca junho. A diferença é de um mês e não muda a conclusão: até lá, a adesão é voluntária, e o próprio escalonamento tira a pressa de quem não precisa migrar agora. Por isso a curva de adesão tende a acelerar perto de cada prazo, e não antes.
O que isso muda para quem investe
O tamanho da aposta explica a atenção do mercado. Segundo estimativas da indústria, as duplicatas em papel movimentam de R$ 10 trilhões a R$ 13 trilhões em emissões por ano. Só 10% a 15% delas viram garantia de crédito, segundo números do setor. Na nossa conta, isso dá algo entre R$ 1 trilhão e R$ 2 trilhões por ano. O resto fica parado porque um financiador não consegue saber se a mesma duplicata já foi vendida a outro, nem se ela corresponde a uma venda real. Essa falta de visibilidade concentra o desconto de duplicatas em poucos bancos grandes, que conhecem o cliente. A ABBC, associação dos bancos médios, projetou no lançamento um mercado de R$ 1 trilhão em dois ou três anos no novo formato, e chamou a estimativa de conservadora.
- FIDCs de recebíveis comerciais: lastro registrado e único reduz o risco de fraude com duplicata fria ou cedida duas vezes, que é o que mais derruba cota subordinada. Quem tem FIDC na carteira ganha com a qualidade do lastro, mas só a partir de 2027.
- Bancos médios e fintechs de antecipação: passam a enxergar recebíveis que hoje ficam presos ao banco do relacionamento. É o grupo que mais tem a ganhar com a concorrência.
- B3: é uma das três escrituradoras e trata o produto como fonte de receita menos dependente do volume da bolsa. A adesão lenta adia essa receita, e a empresa não divulgou quanto ela pode valer.
- Grandes bancos: perdem parte da exclusividade no desconto de duplicatas, uma linha de capital de giro barata de captar e bem remunerada.
- Prazo: nenhum desses efeitos aparece no balanço de 2026. Quem comprou a tese esperando resultado imediato vai ter de esperar.
Para o investidor de renda fixa, o efeito é indireto: crédito com garantia melhor tende a ser mais barato, e um FIDC com lastro auditável merece um prêmio de risco menor. Mas isso exige escala, e escala depende dos gargalos acima. O risco político também pesa: as propostas para rever a reforma tributária, como a defesa do fim do split payment, que gerou embate com a Fazenda, podem obrigar as empresas a refazer integrações fiscais e disputar de novo a mesma equipe de TI. O que observar, então, para saber se a trava se solta?
O que acompanhar daqui para frente
O teste real começa em fevereiro. Se o boleto dinâmico entrar no prazo, o maior gargalo operacional deixa de existir antes da primeira data de obrigatoriedade. Se atrasar, as grandes empresas podem chegar a junho com o sistema pronto e a cobrança ainda manual. Em paralelo, o calendário político pode reabrir a reforma tributária, tema que acompanhamos na proposta de revisão que assustou o mercado.
Contagem de sacadores da Apiimf: o número multiplicou por 11 em um mês. Se passar de mil até a operação plena, em janeiro, a curva está acelerando. Se ficar perto de 300, a adesão segue tímida.
Boleto dinâmico em fevereiro: começar no prazo resolve a liquidação. Um adiamento além de março aperta a janela das grandes empresas.
Fim do status "Restrito": quando o tombamento estiver funcionando entre todas as registradoras, as empresas que já cederam recebíveis poderão migrar. É esse grupo que gera volume.
Junho de 2027 mantido ou adiado: qualquer mudança no cronograma do BC empurra todo o efeito em FIDCs, bancos médios e na receita da B3.