Os EUA deixaram de ser um líder responsável, diz cientista político da UFABC — o que isso muda para quem investe no Brasil Relevância2,0
INTERMEDIÁRIO PTENES

EUA perdem liderança e afetam o Brasil — o que muda com a queda dos Estados Unidos como líder responsável, segundo cientista político da UFABC?

Cientista político da UFABC aponta mudança na política externa e alerta para efeitos no dólar, juros e petróleo

O cientista político Ivan Fernandes, professor da UFABC, afirmou em vídeo do InfoMoney que os Estados Unidos deixaram de ser um líder responsável: com Trump e uma política externa mais agressiva, o país não age mais como o ator confiável que protegia aliados e estabilizava regiões. Na leitura dele, isso pesa diretamente sobre o Brasil, e para o investidor o recado se traduz em atenção a dólar, juros e petróleo.

O que Ivan Fernandes disse sobre os Estados Unidos?

O alerta saiu no Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, enquanto o professor analisava os desafios do novo governo Lula. O argumento tem duas partes. A primeira é um diagnóstico de mudança: os EUA foram, na visão dele, um ator em que os aliados podiam confiar, que os protegia e ajudava a estabilizar regiões, e hoje, sob Trump, adotam uma postura mais agressiva. A segunda é a consequência: essa mudança não fica restrita a quem está perto dos conflitos, ela alcança o Brasil de forma direta.

“Estados Unidos não é mais um líder responsável”título do vídeo do InfoMoney com Ivan Fernandes, da UFABC

É uma leitura de política internacional, feita por um cientista político, e não uma projeção de preços. A tradução dessa tese em dólar, juros e bolsa é o que fazemos daqui em diante, e vale deixar claro onde termina a fala dele e onde começa a nossa análise.

O que a fonte não detalha — e por que isso importa antes de mexer na carteira?

O material que temos é o resumo do vídeo, e ele não traz o que mais interessaria ao investidor. Não diz quais decisões do governo americano o professor tem em mente, quais regiões ele considera menos estáveis nem por qual canal enxerga o impacto no Brasil. Também não há número nenhum: nenhuma estimativa de dólar, de juros ou de crescimento acompanha o alerta.

Isso muda a forma de usar a informação. Uma tese geopolítica sem gatilho datado não é sinal de compra nem de venda. Serve como pano de fundo para pesar os riscos que você já carrega, e é nesse papel que ela entra nas próximas seções. Quem ler o vídeo inteiro terá os exemplos concretos que aqui faltam, e vale conferir se eles apontam para um dos canais abaixo.

Por que a postura dos EUA chega ao seu bolso?

Durante décadas, o investidor global tratou os Estados Unidos como a âncora do sistema: o país cujas decisões podiam ser incômodas, mas previsíveis. Quando a âncora passa a ser percebida como fonte de incerteza, o capital pede mais retorno para aceitar risco, e países emergentes, o Brasil entre eles, costumam sentir primeiro. É o raciocínio por trás da frase do professor, e ele aparece em quatro canais principais.

CanalComo a geopolítica entraOnde você sente
DólarIncerteza global leva capital a buscar abrigo e a recuar de emergentesViagem, importados, ações de exportadoras e de quem tem dívida em dólar
Juros futurosMais risco exige prêmio maior para financiar o BrasilTesouro prefixado e IPCA+, e preço das ações mais sensíveis a juro
PetróleoTensão em regiões produtoras mexe no BrentCombustíveis, inflação e Petrobras
Bolsa e fluxo estrangeiroGestores globais reduzem exposição a mercados percebidos como mais arriscadosIbovespa, FIIs e liquidez dos papéis

O petróleo é o canal mais fácil de enxergar, porque a diplomacia americana já moveu o preço antes. Como mostramos quando um acordo entre Estados Unidos e Irã derrubou o Brent e aliviou os juros futuros no Brasil, bastou uma negociação para o mercado reprecificar. O raciocínio inverso é o que preocupa quem concorda com o professor: se a política externa americana é mais agressiva e menos previsível, o movimento tende a vir com mais frequência na direção ruim, e não só na boa.

Isso se soma ao risco que o Brasil já tem em casa?

O ponto central é a soma. O programa partiu dos desafios do novo governo Lula, e o investidor brasileiro já convive com riscos internos. A reação do mercado ao resultado das urnas está na nossa cobertura das eleições de 2026. O alerta do Goldman Sachs sobre risco fiscal e governabilidade, que chegou a afetar o dólar, está na análise que publicamos sobre o tema.

Um risco externo não causa o interno nem o substitui. O que ele faz é reduzir a margem de erro: com o mundo mais nervoso, o Brasil tem menos tolerância para ruído fiscal ou político, porque o capital que poderia absorver o susto está mais cauteloso. Mesmo assim, o professor não afirma, no que temos da fonte, que o dólar vai subir ou que a bolsa vai cair. O que ele afirma é que o cenário externo mudou de natureza.

E as dúvidas que sobram?

Devo vender ações brasileiras por causa disso? Nada na fonte sustenta uma decisão desse tipo. É uma tese sem preço e sem data, e agir sobre ela seria apostar no escuro. O uso razoável é revisar o quanto da carteira depende de uma única hipótese: só renda variável doméstica, só prefixados longos ou só dívida em dólar.

O dólar vai subir? A fonte não diz. Dólar mais alto é uma consequência possível de mais incerteza global, mas depende também do cenário fiscal, dos juros e do fluxo, fatores que o alerta de Fernandes não cobre.

Isso é novidade ou já estava nos preços? O resumo não permite saber. Trump é governo, não notícia nova, e o mercado já tem visto sua política externa. A novidade aqui é a avaliação de um especialista, e não um fato novo que mude uma taxa amanhã.

O que isso muda para quem investe

Nada muda no seu rendimento hoje, e nenhum ativo ganhou ou perdeu valor por causa da fala do professor. O que muda é a pergunta que vale fazer à carteira: se o ambiente externo ficar mais instável, ela aguenta? Quem tem boa parte do patrimônio atrelada a um único fator, como câmbio, juro longo ou uma commodity, tem mais a revisar do que quem diversificou.

O que acompanhar daqui para frente?

1

O vídeo completo — procure os exemplos concretos de política externa que o professor cita. São eles que dizem se o risco aponta para petróleo, comércio ou conflitos, e por consequência qual canal da tabela vale vigiar.

2

Petróleo e dólar em dias de tensão — se a tese se confirma, eles reagem primeiro a decisões externas. Compare o movimento com o das semanas de calma, sem concluir nada de um dia isolado.

3

Os juros futuros — é onde o prêmio de risco do Brasil aparece. Se subirem sem motivo doméstico claro, o ambiente externo pode estar entrando na conta.

Em resumo, Ivan Fernandes oferece uma lente, não uma previsão. A lente vale ser usada, desde que o investidor não troque a leitura de um especialista por uma ordem de compra ou venda.