GGBR4: Gerdau confirma à CVM que hibernou altos-fornos em Divinópolis — e diz que isso não é fato relevante Relevância4,0
INTERMEDIÁRIO PTENES

GGBR4: Gerdau confirma hibernação e diz que impacto não é relevante — entenda o que a empresa revelou à CVM sobre a usina de Divinópolis

Unidade de Divinópolis representa 4% da capacidade do grupo, mas impacto no dividendo é quase zero.

A Gerdau confirmou à CVM, na sexta-feira (6), que hibernou os altos-fornos e a aciaria da usina de Divinópolis (MG). Pelas contas da própria empresa, a unidade responde por cerca de 4% da capacidade de aço do grupo. Para quem tem a ação GGBR4, o lucro e o dividendo quase não sentem o golpe. O que muda é o peso do Brasil dentro da empresa, que continua encolhendo.

O que a Gerdau disse à CVM sobre Divinópolis?

Ela confirmou o que o jornal Valor Econômico tinha publicado. A empresa hibernou os altos-fornos e a aciaria da unidade, além de ativos ligados à operação. A resposta foi enviada porque a CVM, órgão que fiscaliza o mercado de capitais, mandou à empresa um ofício, o nº 254/2026, pedindo esclarecimentos sobre a reportagem do Valor de 3 de novembro, com o título "Gerdau encerra produção de aço em Divinópolis (MG)".

A resposta traz três pontos que interessam ao acionista. O primeiro é o tamanho: a unidade tem capacidade de produzir cerca de 600 mil toneladas de aço bruto por ano. O segundo é que a usina não fecha de vez: a laminação continua funcionando em escala menor, com aço fabricado em outras unidades da Gerdau. O terceiro é a avaliação jurídica. Na visão da empresa, a decisão não é fato relevante pela Resolução CVM nº 44/21, porque não teria força para mexer de forma considerável na cotação nem na decisão dos investidores. O documento foi assinado pelo diretor de Relações com Investidores, Rafael Japur.

Até aqui, nenhuma novidade. Já tínhamos registrado o comunicado em 06/11 como neutro para a tese. A carta à CVM deixa o caso por escrito e traz os números. Falta saber se a palavra "hibernação" quer dizer pausa ou fim, e foi assim que a história chegou até aqui:

fim de out/2026A empresa põe parte da equipe de férias e cita estoques altos. O sindicato avisa que o alto-forno e a aciaria correm risco.
03/11/2026A Gerdau anuncia o fim da produção de aço na usina, que funcionava havia 32 anos. O Valor publica a reportagem no mesmo dia.
06/11/2026A empresa responde à CVM: chama a parada de hibernação e diz que não é fato relevante.
13/11/2026Audiência pública na Câmara Municipal de Divinópolis sobre os empregos que restaram.

Quanto Divinópolis pesa na GGBR4?

Pouco no total, mas bastante dentro do Brasil. Se 600 mil toneladas equivalem a 4% da capacidade, a Gerdau inteira produz perto de 15 milhões de toneladas por ano (conta nossa: 0,6 ÷ 0,04). O corte, porém, cai inteiro sobre a operação brasileira, que já vinha diminuindo. No terceiro trimestre, a companhia informou a parada da aciaria da Açonorte, em Recife, e a redução da capacidade anual no Brasil de 7,9 milhões para 7,7 milhões de toneladas. Se tirarmos Divinópolis dessa base, a capacidade brasileira fica em torno de 7,1 milhões de toneladas.

Antes da Açonorte7,9 Mt
Depois da Açonorte (3T26)7,7 Mt
Sem Divinópolis (estimativa nossa)~7,1 Mt

Somados, os dois cortes tiram uns 10% da capacidade de aço bruto no Brasil em poucos meses. Ainda assim, o lucro da empresa quase não muda, porque o dinheiro já não vem daqui. A América do Norte respondeu por mais de 76% do EBITDA consolidado no 3T26 (EBITDA é o lucro da operação antes de juros, impostos e depreciação). Como mostramos na análise do resultado do terceiro trimestre, foram os Estados Unidos que levaram o EBITDA ajustado para R$ 3,8 bilhões. Uma usina brasileira que dava pouco resultado sai sem abrir buraco no balanço. Fica a pergunta: por que desligar agora?

Por que a Gerdau desligou os altos-fornos?

Porque o custo deixou de compensar. Em nota, a siderúrgica explicou que a usina perdeu competitividade, principalmente porque ficou difícil conseguir minério de ferro a preço competitivo. A empresa também citou o aumento das importações de aço e as condições ruins para exportar, mercado que sempre foi importante para a unidade. Além disso, a empresa disse que quer concentrar a produção brasileira nas unidades mais eficientes.

O resto do setor mostra o mesmo cenário. A InvestNews lembra que a decisão vem depois de uma queda de quase 15% nas vendas de aço da siderúrgica no Brasil. Em Minas, a Cisam (Siderúrgica de Pará de Minas) também parou a produção, por tempo indeterminado, e a Cedro deu férias coletivas em Mariana. A pressão vem em boa parte do aço chinês que sobra lá fora, num quadro parecido com o que derrubou o preço do minério, como contamos ao falar do minério no menor nível em 18 meses e o efeito na Vale.

O custo social é alto. Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos, 280 trabalhadores foram demitidos e 120 receberam proposta de transferência para outras cidades. A Prefeitura de Divinópolis fala em cerca de mil pessoas atingidas, contando terceirizados, o que dá 7,4% dos empregos industriais do município. Os números de quem fica divergem: uma reportagem do Metrópoles fala em 278 desligados e 180 mantidos na laminação e na logística. Políticos da região já foram ao vice-presidente Geraldo Alckmin pedir medidas contra a importação de aço. Para o acionista, esse é o ponto que pode mudar o jogo, e ele leva direto à pergunta do dividendo.

GGBR4 dividendos: a hibernação mexe no provento?

No curto prazo, não. Os R$ 0,34 por ação referentes ao 3T26 já foram aprovados antes da carta à CVM. Nos últimos 12 meses, a ação pagou R$ 0,79, o que dá um dividend yield (dividendo dividido pelo preço da ação) de cerca de 3,3%. A Gerdau paga proventos a cada trimestre, e a regra não mudou. Segundo relatório do BTG Pactual, a política aprovada em 26/10 mantém o dividendo obrigatório mínimo de 30% do lucro líquido.

O que isso muda para quem tem a ação

Para o dividendo, nada no curto prazo. O risco está num gasto de uma vez só que a carta não menciona. Fechar uma área produtiva costuma trazer indenizações trabalhistas e, às vezes, uma baixa contábil do valor do equipamento parado (o chamado impairment). Os dois reduzem o lucro do trimestre em que aparecem e, com ele, a base dos 30%. A Gerdau não divulgou nenhum desses valores. A empresa apenas disse que manterá o mercado informado sobre eventuais desdobramentos relevantes.

A longo prazo, a decisão pode até ajudar. Uma usina que não dá lucro gasta caixa que poderia virar dividendo. Desligá-la é o tipo de disciplina de custo que a tese da Gerdau pede, com dívida líquida de 0,78 vez o EBITDA. A ressalva é que cada corte no Brasil deixa a ação mais ligada ao aço americano, e esse é o principal risco que já apontávamos.

Como a GGBR4 reagiu e o que acompanhar daqui pra frente?

A ação mal se mexeu. A GGBR4 fechou a sexta-feira em R$ 24,10, com leve alta no dia, mas acumulava queda de 7,2% no mês até 05/11, num movimento que começou antes da notícia de Divinópolis. Os analistas não mudaram de ideia. O BTG manteve a Gerdau como top pick (sua ação favorita) em 04/11, elevou em 12% a estimativa de EBITDA para 2027 e fixou preço-alvo de R$ 33. A XP pôs a ação na carteira de novembro, com 5% de peso e alvo de R$ 30. Uma semana antes, o Itaú BBA tinha feito o movimento que explicamos em a elevação da Gerdau para compra pelo banco. Nosso preço justo segue em R$ 27,69, com veredito de manter.

Nenhum desses analistas apostava na usina mineira. O que mexe com a ação está em outro lugar. Estes são os pontos a vigiar:

1

Gasto com o fechamento no balanço do 4T26: se as indenizações e a baixa contábil passarem de algumas centenas de milhões de reais, o lucro do trimestre e o dividendo proporcional diminuem.

2

Hibernação ou fechamento de vez: um anúncio de venda ou desmonte dos altos-fornos acaba com a chance de retomada que os políticos locais citam.

3

Tarifa contra o aço importado: uma medida concreta do governo depois da reunião com Alckmin seria o primeiro sinal positivo para a parte brasileira da Gerdau.

4

Peso da América do Norte: se passar de 76% do EBITDA no próximo trimestre, a ação depende ainda mais da expansão de Midlothian, nos EUA, prevista para o fim de 2026.

No balanço, a carta à CVM confirma que o Brasil está ficando menor dentro da Gerdau, mas não traz uma surpresa para o caixa. Quem quiser rever de onde vem o lucro pode consultar nossa leitura sobre como a Gerdau chegou ao lucro do 3T26 mesmo vendendo menos aço.