O que esperar do mercado depois da reeleição de Lula?
Os dados apontam para meses de volatilidade alta, não para uma volta rápida garantida. O preço dos ativos embutia a vitória de Flávio Bolsonaro, a curva de juros passou a prever alta da Selic em novembro e os bancos projetam dólar entre R$ 5,20 e R$ 5,65. O que decide o rumo é a resposta fiscal do governo.
Números do meio do pregão. Os valores acima são intradiários de 26/10/2026 (InfoMoney, CNN Brasil, Seu Dinheiro e Reuters, entre 12h e 14h40). O circuit breaker foi acionado às 9h57, o primeiro desde março de 2020. Se a queda se mantiver até o fechamento, será a maior em um dia desde 10 de setembro de 1998 (−15,8%).
Por que a queda foi tão forte desta vez?
Porque o mercado tinha apostado no outro resultado. As últimas pesquisas, Datafolha e Quaest de 24/10, mostravam Flávio com 51% dos votos válidos e Lula com 49%. Entre os dois turnos, o Ibovespa subiu 6,9% e o dólar caiu 4,4%. Em 9 de outubro o índice bateu o recorde de 209.066 pontos, com o dólar a R$ 4,98.
Lula venceu com 51,79% contra 48,21%, segundo o TSE. O preço que estava montado para um cenário teve de ser desmontado em um dia. O BTG já tinha feito a conta antes do resultado: vitória de Lula tiraria cerca de 17% do Ibovespa (para perto de 170 mil pontos), encareceria o dólar de 10% a 15% e levaria os juros longos acima de 8%. A mínima do dia, 169,5 mil pontos, bateu quase exatamente nessa estimativa.
Isso explica a diferença em relação a 2002 e 2022, quando Lula também ganhou. Naquelas eleições o medo já estava no preço antes da votação. Desta vez, o alívio é que estava no preço.
O resultado das urnas, o mapa do voto e a reação da noite de domingo estão em o que aconteceu com o dólar e a bolsa após a vitória de Lula. Aqui o assunto é o que vem depois.
O que a história mostra depois de cada segundo turno
O levantamento da Elos Ayta, publicado pelo InfoMoney em 23/10, mediu o Ibovespa e o dólar do segundo turno até o fim do ano em cada eleição desde 2002:
| Eleição | Vencedor | Ibovespa até o fim do ano | Dólar até o fim do ano |
|---|---|---|---|
| 2002 | Lula | +12,52% | −7,06% |
| 2006 | Lula (reeleição) | +13,08% | n/d |
| 2010 | Dilma | −1,94% | n/d |
| 2014 | Dilma (reeleição) | −3,72% | n/d |
| 2018 | Bolsonaro | +4,88% | +6,54% |
| 2022 | Lula | −4,19% | −2,39% |
Um estudo da FGV/DataBay mostra outro padrão: o Ibovespa caiu no pregão seguinte em 4 das 6 eleições, mas cinco pregões depois estava acima do nível pré-eleição em todas elas, com ganho médio de 3,22%.
O limite dessa comparação. Nenhuma daquelas eleições começou com queda parecida. O pior primeiro pregão da série foi −4,4%, em 2002. O tombo de 2026 é de outra escala, e por isso as comparações mais úteis são com os outros dias em que a bolsa caiu mais de 10%.
Queda em V ou sangria lenta? Os três precedentes
A pergunta que todo mundo faz hoje é se dá para comprar barato esperando a volta. A história brasileira tem os dois desfechos, e o que separou um do outro não foi o tamanho da queda.
| Episódio | O choque | O que veio depois |
|---|---|---|
| Setembro de 1998 | Moratória da Rússia; Ibovespa −15,8% em 10/09, cinco circuit breakers em menos de um mês | O real foi desvalorizado em janeiro de 1999. No primeiro trimestre de 1999 o Ibovespa subiu 57,67%, o melhor primeiro trimestre da série |
| Março de 2020 | Pandemia; quedas acima de 12% em um dia e seis circuit breakers no mês | Recuperação em V: o Ibovespa terminou 2020 acima do nível de 2019 |
| Outubro de 2014 | Reeleição de Dilma; −2,77% no dia seguinte | Sangria de anos: 2014 fechou em −2,91%, 2015 em −13,31% (terceiro ano seguido de queda), dólar +48,5% em 2015 e perda do grau de investimento em setembro de 2015 |
Em 1999 e em 2020 houve uma virada clara: o câmbio flutuante com a nova política econômica, no primeiro caso, e estímulo global com juro zero no mundo, no segundo. Em 2014-2015 a virada não veio: o déficit cresceu, a inflação passou de 10% e a bolsa só se recuperou depois da mudança de governo em 2016.
Por isso as casas que comentaram o dia olham para a mesma coisa. Para Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, o problema central é a condução das contas públicas, e o risco de uma correção mais profunda é elevado. Para Thomas Haugaard, da Janus Henderson, a atenção agora vai para a equipe econômica e o plano fiscal. Fábio Murad, da Wiser, lembra que o circuit breaker mostra a intensidade da venda, mas não por quanto tempo ela vai durar.
Bolsa: o que os bancos estão dizendo
- JPMorgan: rebaixou o real e os títulos brasileiros de overweight para marketweight e não descarta queda adicional de até 20% no Ibovespa, com aperto monetário.
- Goldman Sachs: vê risco fiscal maior; o Orçamento de 2027 e a relação com o Congresso passam a ser centrais.
- Citi: espera que a pressão continue.
- Capital Economics: "a vitória surpreendente de Lula vai frustrar as esperanças de reformas" e torna menos provável o corte de juros.
- Gavekal Research: do lado oposto, vê a correção como oportunidade de compra, porque os fundamentos do país seguem válidos.
- XP: recomenda evitar decisões no pânico.
Dentro da bolsa a queda não foi igual. O Banco do Brasil caiu cerca de 28% e a Petrobras perto de 9%: estatais carregam o risco de interferência. Exportadoras subiram, porque faturam em dólar: Suzano +8,2%, Embraer +7,4%, Vale +5,6% e WEG +4,6% no fim da manhã.
Dólar: até onde pode ir até o fim do ano?
O dólar saiu de R$ 4,99 na sexta para a faixa de R$ 5,45 a R$ 5,60. As projeções publicadas no dia:
| Casa | Projeção |
|---|---|
| BTG (antes do resultado, cenário Lula) | +10% a +15% (R$ 5,49 a R$ 5,74, conta nossa sobre sexta) |
| JPMorgan | R$ 5,50 |
| Armor | R$ 5,60 a R$ 5,65 |
| Suno | ~R$ 5,40 em 2027 |
| MA7 | R$ 5,20 a R$ 5,30 |
| Focus (coletado ATÉ 23/10, antes da eleição) | R$ 5,05 em 2026 e R$ 5,15 em 2027 |
O Focus da próxima segunda-feira vai mostrar quanto os economistas revisaram. Hoje, a maioria das casas que publicou número coloca o dólar entre R$ 5,40 e R$ 5,65.
E dezembro? O efeito da remessa de fim de ano
Dezembro tem uma força conhecida: multinacionais mandam lucros e dividendos para fora e compram dólar para isso. Nos dois últimos anos esse efeito apareceu. Em dezembro de 2024 o dólar subiu cerca de 3% e chegou a R$ 6,27, e o Banco Central vendeu US$ 12,7 bilhões em quatro dias, a maior injeção desde a pandemia. Em dezembro de 2025 a alta foi de 2,89%.
O histórico longo, porém, não confirma uma regra. No levantamento do Clube dos Poupadores de 2000 a 2024, dezembro foi o mês com menor probabilidade de alta do dólar: 46%. A remessa existe, mas em muitos anos foi coberta por entrada de exportação e pela atuação do Banco Central. Ela pesa mais quando já existe estresse, como em 2024.
Juros e Tesouro Direto: as taxas voltaram ao recorde?
Quase. O Tesouro IPCA+ teve a segunda maior alta diária de taxa da série iniciada em 2005, segundo o InfoMoney; a maior foi de 1,62 ponto, em 12/03/2020. O Tesouro Direto abriu com quase três horas de atraso, o Tesouro Nacional cancelou os leilões da semana e recomprou cerca de R$ 7,1 bilhões em prefixados.
| Título | Sexta (23/10) | Segunda (26/10) | Preço do título no dia |
|---|---|---|---|
| Tesouro IPCA+ 2032 | IPCA + 6,72% | IPCA + 8,10% | −7,1% |
| Tesouro IPCA+ 2040 | IPCA + 6,58% | IPCA + 7,71% | −14,0% |
| Tesouro IPCA+ 2050 | IPCA + 6,42% | IPCA + 7,64% | −23,6% |
| Tesouro Prefixado 2029 | 12,76% | 15,40% | n/d |
| Tesouro Prefixado 2032 | 12,89% | 15,78% | −12,2% |
Para comparar com o passado recente: em 18 de junho de 2026 o IPCA+ 2032 abriu a 8,51%, recorde da série, e o IPCA+ 2045 chegou a 7,67%. Em 2024, quem tinha o IPCA+ 2045 perdeu 21,9% na marcação a mercado no ano. Taxas acima de IPCA + 6,5% foram pagas pelas NTN-Bs em só 30,7% do tempo desde 2009, segundo a XP.
Duas pessoas, o mesmo título, efeitos opostos. Quem já tinha IPCA+ longo viu o preço cair até 23,6% em um dia: é perda de marcação, que só vira perda real se vender antes do vencimento. Quem compra hoje trava a taxa nova até o vencimento. A taxa pode subir ainda mais antes de cair: quem comprou o IPCA+ 2045 a 6,53% em julho de 2024 viu a taxa passar de 7,2% seis meses depois.
A Selic está em 13,75%, depois de cinco cortes seguidos. Antes do segundo turno a curva de juros precificava quase 100% de chance de mais um corte no Copom de 3 e 4 de novembro. Na segunda, segundo a Reuters, passou a precificar cerca de 75% de chance de alta de 0,25 ponto, e mais altas em dezembro e janeiro. Para quem está no pós-fixado, isso significa CDI alto por mais tempo. Para quem compara com o Tesouro IPCA+, a conta mudou de um dia para o outro.
FIIs: os fundos imobiliários caem menos que as ações?
Em dois dos três últimos episódios de estresse, caíram bem menos:
| Ano | Contexto | IFIX | Ibovespa |
|---|---|---|---|
| 2015 | recessão, rebaixamento, Selic em alta | +5,41% | −13,31% |
| 2022 | Selic a 13,75%, eleição | +2,22% | +4,69% |
| 2024 | estresse fiscal, juros longos em alta | −5,89% | −10,36% |
Mas há duas forças contra. A primeira: o preço do fundo imobiliário anda ao contrário dos juros longos, porque o investidor compara o rendimento do fundo com o Tesouro IPCA+, que acabou de subir quase dois pontos. A segunda: o aluguel de fundo de tijolo depende da economia (vacância, reajuste, inadimplência), e uma economia mais fraca pesa no dividendo com atraso. Os fundos de papel, que recebem CDI ou IPCA mais juros, têm a receita protegida pelo próprio juro alto, desde que o devedor pague. Os números de cada fundo estão na página de FIIs.
E a taxação de dividendos? O que já existe e o que é especulação
Ela já existe. A Lei 15.270/2025, sancionada em 26/11/2025 e em vigor desde 1º de janeiro de 2026, retém 10% de IR sobre dividendos acima de R$ 50 mil por mês pagos pela mesma empresa à mesma pessoa, e criou o imposto mínimo para quem tem renda acima de R$ 600 mil por ano, apurado na declaração de 2027. Lucros apurados até 2025, com distribuição aprovada até 31/12/2025, seguem isentos.
Até a publicação deste artigo não havia proposta nova formalizada de aumento dessa tributação. O que existe é a pergunta sobre o Orçamento de 2027 e como o governo vai fechar a conta. E aqui entra o Congresso eleito: o PL terá a maior bancada da Câmara (cerca de 121 deputados, contra 88 da federação do PT) e a maior bancada do Senado desde 1988 (28 senadores), pelas projeções do primeiro turno. Nenhum partido tem maioria sozinho. Qualquer imposto novo precisa passar por esse Congresso.
Os três cenários, e o que decide cada um
| Cenário | O que precisa acontecer | Como ficou parecido no passado |
|---|---|---|
| Alívio | Equipe econômica com nome de credibilidade, Orçamento 2027 com meta crível, Copom firme | 2002-2003: o medo do "risco Lula" virou alta quando a política econômica foi mantida; Ibovespa +12,5% até o fim de 2002 |
| Lateral com ruído | Sinais mistos; Copom volta a subir os juros; dólar oscila entre R$ 5,30 e R$ 5,70 | Fim de 2022: depois do 2º turno, o Ibovespa caiu cerca de 5% até dezembro e o dólar subiu cerca de 2% |
| Estresse | Sinal de mais gasto, conflito com o Banco Central, imposto novo sobre investimento | 2015: bolsa −13%, dólar +48%, perda do grau de investimento |
O que a soma dos dados indica, sem torcida. O choque do primeiro dia já entregou o que os bancos estimavam para o cenário Lula (BTG: −17% na bolsa, dólar +10% a 15%). O que falta ser decidido é a política fiscal, e ela não se resolve em um pregão: as próximas datas que podem mudar o preço vão de novembro a janeiro. Até lá, a maioria das casas espera pressão (Citi, JPMorgan, Capital Economics) e uma minoria vê oportunidade (Gavekal). Nas três vezes em que o Brasil teve queda desse tamanho, a recuperação só veio depois de uma virada concreta, nunca por si só.
O que observar nas próximas semanas
- Nome do ministro da Fazenda e da equipe econômica do segundo mandato: é o primeiro sinal que os analistas citaram.
- Copom de 3 e 4 de novembro: se o Banco Central subir a Selic, confirma o que a curva passou a precificar.
- Boletim Focus das próximas segundas: quanto os economistas revisam dólar, Selic e inflação.
- Orçamento de 2027 no Congresso, até o recesso de dezembro.
- Copom de 8 e 9 de dezembro e remessas de fim de ano, a janela de pressão sazonal no dólar.
- Copom de 26 e 27 de janeiro de 2027.
O que fazer com seus investimentos agora?
Não existe resposta única, e este artigo não é recomendação. Mas alguns fatos ajudam a separar decisão de reflexo:
- Reserva de emergência não é lugar de aposta. Dinheiro que você pode precisar em meses fica no pós-fixado, que com Selic de 13,75%, e talvez mais alta, rende bem sem oscilar.
- Prazo decide o título. Taxa alta no IPCA+ só vale para quem consegue levar até o vencimento; quem pode precisar vender antes fica exposto a quedas como a de hoje.
- Comprar tudo de uma vez é apostar no fundo exato. Em 2015 a bolsa seguiu caindo por meses; em 2020 a volta veio em semanas. Entrar em partes reduz o peso de errar o momento.
- Diversificar em moeda é proteção, não especulação. A XP, por exemplo, sugere ao menos 15% no exterior. Dólar comprado depois de subir 9% em um dia também pode devolver parte disso.
A alocação por setor do Rico aos Poucos, revisada em 18/10, antes do segundo turno, já tinha caixa (30%) e dólar (25%) como os dois maiores pesos, e bolsa com 5%. A cotação do dólar em tempo real está na página do dólar.
Perguntas frequentes
A bolsa vai continuar caindo depois da reeleição de Lula?
Ninguém sabe onde é o fundo. O preço embutia vitória de Flávio Bolsonaro, por isso a queda foi a maior desde 1998. Em 2014 a bolsa caiu por mais dois anos; em 1999 e 2020 choques do mesmo tamanho viraram recuperação em meses. O que separou os dois caminhos foi a resposta da política econômica.
O dólar vai subir até o fim de 2026?
As projeções publicadas em 26/10 vão de R$ 5,20 a R$ 5,65. Dezembro tem pressão de remessa de lucros (alta de cerca de 3% em dezembro de 2024 e de 2,89% em dezembro de 2025), mas de 2000 a 2024 dezembro foi o mês com menor chance de alta (46%).
Vale a pena comprar Tesouro IPCA+ agora?
As taxas estão entre IPCA + 7,6% e 8,1%, perto do recorde de junho de 2026. Quem leva até o vencimento trava a taxa; quem pode vender antes corre o risco de marcação a mercado, como a queda de 23,6% do IPCA+ 2050 em um dia.
Vão taxar dividendos?
Já taxaram: desde janeiro de 2026 há retenção de 10% sobre dividendos acima de R$ 50 mil por mês da mesma empresa. Não há proposta nova formalizada até 26/10/2026, e qualquer imposto novo passa por um Congresso em que o PL é a maior bancada.
A Selic vai subir de novo?
A curva de juros passou a precificar cerca de 75% de chance de alta de 0,25 ponto no Copom de 3 e 4 de novembro, depois de cinco cortes que levaram a Selic a 13,75%.
De onde vêm os números
- Resultado: TRE-SP/TSE, 25-26/10/2026. Pesquisas: Datafolha e Quaest, 24/10/2026.
- Ibovespa, dólar, DI, circuit breaker e analistas: InfoMoney (ao vivo, 26/10/2026), CNN Brasil (26/10/2026), Reuters via Investing.com (26/10/2026), Seu Dinheiro (26/10/2026).
- Tesouro Direto: InfoMoney e Seu Dinheiro (26/10/2026); InvestNews (23/10/2026); InfoMoney (18/06/2026 e 02/07/2024); Investidor10 (02/01/2025).
- Histórico pós-eleição: Elos Ayta via InfoMoney (23/10/2026); FGV/DataBay via Suno; Exame (2022).
- 1998, 1999 e 2015: InfoMoney; TradeMap. 2014: Terra e Banco Central.
- Projeções de câmbio: Exame (26/10/2026); BTG via Exame; Focus via Forbes Brasil (até 23/10/2026).
- Dólar em dezembro: Seu Dinheiro (2024), DGABC (2025), Clube dos Poupadores (2000-2024).
- IFIX: Meus Dividendos, Mais Retorno, InfoMoney.
- Lei 15.270/2025: Felsberg Advogados. Congresso: TV Senado e Agência Brasil (projeções do 1º turno).
Este conteúdo é informativo e não constitui recomendação de investimento.