CSNA3: o que aconteceu — CSN assina a venda da CSN Cimentos à chinesa Huaxin por R$ 12,7 bi, e a ação continua na bolsa Relevância6,0
INTERMEDIÁRIO PTENES

CSN Cimentos: CSNA3 vende ativos para a Huaxin por R$ 12,7 bi — entenda os impactos para o mercado e para a empresa [CSNA3]

Negócio com a chinesa Huaxin corta a alavancagem, mas valor fica abaixo das expectativas e deixa o mercado dividido

A CSN não acabou e a ação CSNA3 continua sendo negociada normalmente. Quem foi vendida é uma controlada, a CSN Cimentos. Num Fato Relevante entregue à CVM neste domingo (08/11), a Companhia Siderúrgica Nacional informou que assinou no dia anterior o contrato definitivo de venda da cimenteira para a chinesa Huaxin, por R$ 12,7 bilhões de valor de empresa. É a etapa que faltava para o plano de reduzir a dívida sair do papel. Você não precisa fazer nada, mas também não vai receber dinheiro nenhum dessa venda.

CSNA3: o que aconteceu?

A CSN assinou em 07/11 o contrato de compra e venda de ações da CSN Cimentos com a Huaxin Building Materials Group. O valor de empresa acordado ainda está sujeito a ajustes de dívida líquida e capital de giro no fechamento. O negócio só se conclui depois do sinal verde do CADE, da ANEEL e dos órgãos reguladores chineses.

Até aqui, a CSN tinha só exclusividade de negociação com a Huaxin. Agora há um contrato assinado, com obrigações para as duas partes. A empresa disse que pretende concluir a transação "tão logo" as condições sejam cumpridas, mas não deu data. Também não informou quanto da cifra chegará de fato ao caixa depois dos ajustes, e essa é a pergunta que continua aberta.

A CSNA3 foi extinta ou saiu da corretora?

Não. O Fato Relevante não fala em fechamento de capital, em oferta pública pelas ações da CSN nem em troca de código. A CSN continua dona da usina de Volta Redonda, da mineração e da infraestrutura. Muda apenas uma das empresas debaixo dela.

Quem tem CSNA3 continua com as mesmas ações. A Huaxin compra as ações da CSN Cimentos, que nunca foram negociadas na bolsa, e paga à CSN. Se a ação não aparece no seu aplicativo, o motivo não é esta operação. Vale conferir com a corretora.

Se nada sumiu, por que tanta gente está procurando a ação? Porque o papel derreteu. Pelos nossos dados, a CSNA3 fechou o pregão de 30/10 a R$ 3,88, com queda de 8,49% no dia, 56,6% no ano e 58,6% em 12 meses. A queda daquele dia tem a ver com esta mesma venda.

Como a venda chegou até aqui e por que a ação caiu justo no anúncio?

A venda da cimenteira se arrastava desde o começo do ano. Com a demora para destravar a venda, prometida desde o começo do ano, o mercado chegou a especular um IPO do braço de cimentos.

mar/2026Começa o processo competitivo de venda da CSN Cimentos
09/10CSN assina term sheet para vender a alemã SWT por €550 milhões
23/10Ação sobe 11,69% com notícias de venda da cimenteira por R$ 15 bilhões
30/10Exclusividade de 10 dias com a Huaxin, com o valor de R$ 12,7 bi; ação cai 8,49%
07/11Contrato definitivo assinado e divulgado à CVM no dia 08/11
sem dataFechamento: depende do CADE, da ANEEL e das aprovações chinesas

A sequência explica a queda. A alta de 23/10, que contamos na cobertura da disparada com os rumores de venda, foi alimentada por uma cifra de R$ 15 bilhões. Quando o número oficial veio menor, um banco citado pelo Money Times observou que o valuation "ficou na parte inferior das expectativas informais do mercado (R$ 12 a 15 bilhões)". Para a empresa, o preço se justifica: a Huaxin apresentou a proposta mais vantajosa do processo, e o consórcio Votorantim e Cementir tinha oferta próxima de R$ 11 bilhões. Segundo o Monitor do Mercado, o valor equivale a cerca de 7,5 vezes o Ebitda projetado para 2026, estimado em R$ 1,7 bilhão.

A frustração ficou no preço, e por isso a assinatura de agora é notícia boa. Ela tira da mesa o risco de o negócio voltar à estaca zero. A pergunta seguinte é quanto ele alivia a dívida.

Quanto a dívida da CSN cai com a venda?

Bastante, mas menos do que a manchete sugere, e a resposta depende de quem faz a conta. A venda leva a dívida e também o lucro operacional da cimenteira, que teve EBITDA recorde no 2T26. Por isso a alavancagem cai menos que a dívida.

MedidaAntesDepois da vendaQuem calcula
Dívida líquidaR$ 42,1 biR$ 29,4 biXP
Alavancagem (método da empresa)3,5x2,8xXP
Alavancagem (EBITDA de 12 meses)~5,5x~4,9xEstimativa Rico aos Poucos
Despesa anual com juros—~R$ 1,5 bi a menosBradesco BBI

As duas primeiras linhas são da XP, que estimou que a dívida líquida cairia de R$ 42,1 bilhões para R$ 29,4 bilhões e a alavancagem consolidada recuaria de 3,5 para 2,8 vezes. Nossa conta é mais dura. Pegamos o EBITDA dos últimos 12 meses que acompanhamos, de R$ 7,7 bilhões. Isso dá R$ 42,1 bi ÷ 7,7 ≈ 5,5x antes. Depois, tirando os R$ 1,7 bi do cimento, sobram R$ 29,4 bi ÷ 6,0 ≈ 4,9x. A S&P é ainda mais pessimista: projeta alavancagem acima de 7,5x em 2026. Os métodos são diferentes, mas o sinal é o mesmo nas três contas: a venda melhora o quadro, mas não tira a CSN da zona de risco.

O ganho mais concreto para o acionista está nos juros. Com cerca de 1,326 bilhão de ações, a economia estimada pelo Bradesco BBI dá algo como R$ 1,13 por ação por ano, antes de impostos. É quase 30% do preço de R$ 3,88 (conta nossa). Esse dinheiro deixa de ir para os bancos e passa a sobrar no resultado.

Por que, então, a ação não reage com mais força? Em parte porque o valor de empresa não é dinheiro vivo. A Huaxin assume a dívida da própria cimenteira e o resto passa pelos ajustes de fechamento. Os valores de referência não representam necessariamente o valor líquido que entra no caixa. O documento não diz quanto a CSN vai receber em dinheiro.

O que a venda resolve e o que continua em aberto para o acionista?

  • O negócio deixa de ser promessa: há contrato assinado com um comprador que ganhou um processo competitivo.
  • Somada à SWT, a operação chega perto da meta. Em conjunto, as transações representam aproximadamente R$ 15,8 bilhões em enterprise value, contra uma meta de levantar entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões com a venda de ativos.
  • Menos juros a pagar significa menos risco de a empresa ter de emitir ações a preço baixo, o que diluiria quem já é sócio.
  • Não há dividendo à vista: o último foi de R$ 0,5505, com data-ex em 22/11/2024, e o dinheiro da venda vai para a dívida.
  • A CSN perde o negócio que vinha entregando o melhor resultado entre os seus segmentos.
  • Não há prazo para o fechamento, e a aprovação na China é uma etapa que o mercado brasileiro tem pouca capacidade de prever.

O balanço continua frágil, e foi esse o motivo do rebaixamento da nota de crédito da CSN pela S&P em outubro. A perspectiva negativa indica risco de novo rebaixamento se desinvestimentos atrasarem. Ou seja: a velocidade do fechamento importa tanto quanto o preço. Segundo o Valor, a companhia busca antecipar junto a instituições financeiras parte dos recursos previstos na venda, justamente para não depender do calendário dos reguladores. Também pelo Valor, a negociação com a Huaxin é um dos fatores que levaram a CSN a rever a necessidade de vender outros negócios, como as participações na MRS e nos portos.

Na nossa ficha, a CSNA3 segue com veredito "observar" e nota 3,1 de 10. A assinatura confirma a parte positiva da tese, a de que a empresa consegue vender ativos, mas não muda essa leitura até o dinheiro entrar. A página com cotação, dividendos e documentos da CSNA3 reúne os próximos comunicados. O andamento da venda da siderúrgica alemã SWT é a outra metade da conta.

O que acompanhar daqui para frente?

1

Aprovação do CADE: uma aprovação sem restrições é o primeiro sinal de que o fechamento está perto. Se o CADE impuser condições ou pedir análise mais longa, a entrada do dinheiro atrasa.

2

Valor final depois dos ajustes: quanto mais longe de R$ 12,7 bi ficar o abatimento da dívida, pior para a conta da alavancagem.

3

Dívida líquida no balanço: só deve aparecer abaixo de R$ 42,1 bi de forma relevante no trimestre em que a venda for concluída. Se a dívida subir antes disso, a queima de caixa está comendo parte do alívio.

4

Nota de crédito: se a S&P tirar a perspectiva negativa, é sinal de que o risco de crédito diminuiu. Um novo corte indicaria que a venda não bastou.